Acordei no meio da noite, preocupada com algumas coisas, então achei melhor tomar um leite achocolatado para ver se acalmava. A sala escura, meu irmão dormia com a televisão ligada. Resolvi não acordá-lo, e tomar meu leite no escuro mesmo para não perturbar. Abri a geladeira, pus o leite no copo, aproveitei para sentir um friozinho vindo da geladeira e usar a luz para não derramar o leite no chão. Era só o que me faltava ter que limpar o chão da cozinha no meio da madrugada. Como se não bastasse o dia todo trabalhando.
Peguei a colher, o chocolate em pó, visualizei a televisão. "Não acredito que meu irmão dormiu vendo esse programa horrível!" Coloquei uma colher. "Deve ter dormido antes disso começar!" Coloquei a segunda colher. "Mas como é que isso está no ar?" Misturei o chocolate. "Tem gosto pra tudo nessa vida mesmo." Tomei um gole. "Tanta coisa que podia ser mais educativa, de bom gosto... e as pessoas vêem isso! Credo!" No segundo gole, senti que havia uma bolinha diferente no meu leite. "Hum, que delícia! Deve ser aquelas bolinhas cheias de achocolatado que estouram na nossa boca e espalham areia de chocolate pela língua."
Nesse momento, estourei a bolha com o céu da boca e, para minha surpresa, não veio nenhuma areinha depois do estouro. Ao invés disso, senti espalhar uma gelatina mole por sobre minha boca, sem gosto definido e um cheiro ardido adentrou minha narina. "E agora, o que eu faço? Engulo, cuspo?" Não deu tempo para nada. Aquela plasta molenga e mal cheirosa desceu minha garganta abaixo tomando conta até da minha visão pois eu já não enxergava coisa alguma pois as lágrimas haviam enchido meus olhos de água. Não respirava direito sentindo descer pela garganta aquilo que começava a parecer uma lesma morta de tão vagaroso seu movimento.
Em menos de um segundo tudo havia acabado. O cheiro havia sumido, não havia gosto em minha língua e a sensação pegajosa havia desaparecido.
Bom é melhor dormir. Amanhã descubro que bicho me mordeu.