terça-feira, 8 de março de 2016

Ofídico

Ofídico

Inaura não sabia seu nome.  Sabia que não era Inaura, mas não sabia qual era. A mãe dela a deu para este casal com duas filhas para que ela ajudasse na casa já que as meninas estavam com idade para a escola. Ela havia nascido após quatro e antes de outros nove. E como não havia comida e cama para todos, essa foi a saída. Na nova casa, ela era chamada de Inaura. E para quem chamava, ela respondia.
As meninas iam para a escola. Inaura limpava a casa, fazia almoço, fazia as compras e tudo aquilo que Dona Valdete lhe ensinava ou pedia. Dona Valdete a tratava com cuidado e firmeza, dando a Inaura desconfiança e afeto. Por dona Valdete, ela fazia tudo.  Aprendia com rapidez e evoluía com desenvoltura. Às vezes, Inaura pegava dona Valdete com soslaios de orgulho, e imediatamente, quando descoberta, voltava aos seus olhos firmes.
Quando chegava o fim da tarde, as meninas chegavam da escola, tomavam o lanche e se punham a fazer o dever de casa. Iniciavam o de matemática, finalizavam, fechavam o livro, e o dava para Inaura. Inaura os devorava como sorvetes em dia de verão. Alice, a mais nova, havia ensinado Inaura a ler e tirava suas dúvidas sempre que apareciam. Quando tinha a necessidade de debater para maior entendimento de alguma questão, Alice procurava Inaura. Nesses momentos, Inaura se sentia importante e valorizada. Ficava feliz por aprender e poder ajudar nos âmbitos da ciência.
Um dia, ao sair da sala de estudos, ouviu de Vanessa:
- Continuo não entender por que você dá corda a essa menininha... É inútil. Não vai levar ninguém a lugar nenhum. É só perda de seu tempo.
-Ah, Vanessa.... eu gosto e não me custa.
-Para mim, como diz na Bíblia, é jogar pérolas aos porcos.
Aquilo machucou Inaura, mas ela se calou para não aborrecer Alice, que poderia não querer confrontar a irmã mais velha.
Com o passar do tempo, o laço entre Alice e Inaura se estreitava e a amizade crescia. Cada vez mais, Inaura sentia o desprezo de Vanessa em olhares e palavras de rispidez e sarcasmo. Algumas vezes, Vanessa incluía a irmã na grosseria que fazia. Inaura tentava não se importar e fingir que não era com ela. Trocava olhares de cumplicidade com Alice, o que lhe dava uma certa segurança.
Todos os dias Inaura voltando da padaria passava por Renato, namorado de Vanessa. O pai dele tinha um pequeno armazém na esquina da casa delas. Renato sempre cumprimentava gentilmente, e ela respondia pensando o que será que ele havia visto nela.
Vanessa era linda. Esguia, com pele branca e cabelos castanhos cujos cachos se enrolavam nas pontas, sempre com unhas bem cuidadas e um leve batom que realçava seus lábios carnudos e bem feitos. Os olhos amendoados e rosto e nariz finos reforçavam sua beleza. Ela mantinha os olhos atentos a tudo e sempre tinha uma resposta na ponta da língua para tudo.
Quando se deu as vésperas da festa da batata, que era a festa maior da cidade, dona Valdete se encheu de encomendas. O trabalho de Inaura triplicou e quase não tinha tempo para os estudos. Por três noites seguidas, Inaura havia dormido uma hora apenas cada. Uma das noites, dona Valdete nem havia dormido. No sábado a tarde, dona Valdete iria entregar as encomendas, chamou Alice e disse a Inaura que ela fosse descansar, pois na hora que voltasse, elas iriam arrumar a casa. Inaura não perdeu tempo. Foi para seu quartinho no fundo da cozinha e nem tirou a roupa, deitou e dormiu. No meio de seu sono, entreabriu os olhos e viu o vulto de uma mulher na porta, o que lhe pareceu ser Vanessa. Mas fechou os olhos e voltou ao seu descanso. De repente, sentiu uma dor forte na testa. Acordou assustada, com o corpo dormente, calafrios e suor. Tentou abrir os olhos, e com a vista embaraçada, ainda conseguiu ver uma cobra saindo do seu quarto. Com o resto de suas forças, gritou a plenos pulmões por ajuda. Não sabia se a voz saía, se alguém ouvia até que desmaiou. Acordou com Astolfo, o vizinho, passando um pano gelado em sua testa.
- Foi um grande susto, Inaura. Consegui tirar todo veneno da picada da cobra, mas vai ficar essa marca na sua testa.
Todos mantinham distância de Astolfo pois diziam que ele era um bruxo. Então como não havia ninguém por perto após sua saída, Inaura preferiu não contar nada para ninguém.  Quando dona Valdete chegou, a  chamou imediatamente para a faxina começar. Inaura, cambaleante e com a vista enevoada, chegou até a sala e deparou com a cara de raiva e susto de Vanessa. Dona Valdete, também assustada, perguntou:
- O que foi isso em sua testa?
- Nada, Dona Valdete, apenas um bicho me mordeu. O que a senhora quer que eu faça primeiro?
Vanessa saiu pisando firme, Dona Valdete, pelo cansaço, se deixou levar pela resposta, mas Alice ficou desconfiada.
- Comece pela cozinha. Depois limpe a sala.
Naquele dia, Inaura descobriu a força que  tinha. Ainda sem sentir os dedos das mãos e dos pés, fez toda a faxina. Desde então nunca mais duvidou de si.
Quando o término da escola foi chegando, Renato foi à casa pedir oficialmente a mão de Vanessa em casamento. Foram preparados salgadinhos, caldos e pães de todos os tipos. A mesa quase não cabia tudo de tão cheia. Inaura os fez com muito cuidado e carinho. Não por Vanessa, mas pela idéia do casamento poder tirá-la da casa. Desde o episódio da cobra, Vanessa e Inaura já não conversavam além do essencial. Apenas entre elas, estava declarada uma guerra. Inaura sabia do risco que corria, já que era o lado mais fraco. Mas não se importava. Achava que era melhor uma inimiga declarada do que uma traidora enrustida. E ainda tinha a felicidade de não precisar ficar fingindo, o que lhe era um alívio.
A festa foi um sucesso. O rapaz propôs, a moça aceitou. Todos comeram muito. Beberam além da conta. Ficaram felizes. O que deixou Inaura bastante satisfeita. Ao final, restaram apenas Dona Valdete e as meninas, Renato, o pai e a mãe para os últimos acertos para o casório. Inaura vendo todos na sala, pensou em que tipo de acerto tanta gente bêbada podia fazer, se riu e partiu para arrumar a cozinha.
Em paz consigo mesma, Inaura lavava suas vasilhas com tranqüilidade. De repente, sua boca foi tapada e sua cabeça foi puxada para trás dando um solavanco em suas costas e a pressionando contra um outro corpo, deixando-a  com um mínimo de entrada de ar em sua narina. Uma outra mão foi direto em seu seio, rasgando seu vestido, e esfregando com violência. O cheiro de álcool penetrou em todos os sentidos de Inaura, e a única coisa que ela fez, por puro instinto, foi jogar o copo onde ela sentia que tinha uma cabeça. Mesmo sem saber o que estava mirando, acertou a testa, e ouviu um grito de ai. Nesse momento, ela foi solta e correu para o quarto sem olhar para trás. Foi direto para o chuveiro, e chorou desesperadamente. Segundos depois, Dona Valdete a chamou. Ainda com olhos cheios de lágrimas e trêmula, Inaura foi até a sala. Vanessa estava alucinada gritando palavrões, exigindo uma ação da mãe imediatamente.
Dona Valdete então perguntou:
- Inaura, foi você quem fez isso? Foi você quem machucou Renato, jogando-lhe um copo na testa?
Inaura se assustou vendo a imagem de Renato sangrando um rio de sangue, todos olhando para ela.  Vanessa estava furiosa e foi segurada pela irmã. Sem saída da situação, Inaura correu em direção a rua sem destino. Parou ao sol nascer. E pôde se acalmar. Respirou fundo. Decidiu voltar a casa, mesmo que fosse para pegar suas coisas. Todos dormiam. Entrou. Pegou suas roupas. E na saída, foi interrompida por Alice.
- Para onde você vai?
- Não sei, Alice.
- Acho que você está fazendo a coisa certa.
-Você também acha que sou culpada.
- Não sei. Acho que não. Mas isso não importa. Tome, este dinheiro vai te ajudar por alguns dias.
-Alice, nunca te esquecerei. Se eu puder, lhe pago em dobro.
-Vá, minha amiga e tente ser feliz.
Inaura saiu em prantos dos braços da única amiga que teve em toda sua vida.Ela sabia que nenhuma outra amizade seria igual a de Alice e por isso seria sempre grata.
Ao final da cidade, viu um anúncio de emprego em uma farmácia. Entrou e perguntou qual era o serviço, e para sua sorte era o de faxina. Começou imediatamente. O dono da farmácia era o Senhor Osvaldo. Ele era da cidade mas estudou toda vida e se formou na faculdade de farmácia da capital. Era um homem muito sério e distinto. Ensinou passo a passo o tipo de faxina Inaura iria fazer. Ela teria que limpar todo o laboratório onde ele produzia as alopatias, homeopatias etc. A sua especialidade era soro fisiológico.
- O que é isso? Perguntou curiosa Inaura.
- É o que tomamos quando levamos uma picada de cobra.
Nesse momento, Inaura levou sua mão a testa. E foi a vez de acender a curiosidade de Osvaldo.
-Isso é uma picada de cobra, não?
-Sim. Mas preferiria não falar sobre isso, se o senhor não se importar.
- Tudo bem. Vamos, vou te mostrar todo o local.
E foi lhe mostrando em detalhes já dando a Inaura toda a explicação da limpeza com detalhes. Por último, bem lá no fundo havia uma porta. Ele se virou e disse:
-Inaura, vou lhe mostrar o maior quarto que tenho no estabelecimento. Este quarto, você só limpará se e quando estiver se sentindo á vontade. Tudo bem?
Ela confirmou com a cabeça apreendida sem saber o que vinha pela frente.
Quando ele abriu a porta, Inaura viu vários pequenos quartos separados com paredes entre si e vidros à frente com trancas. Dentro desses quartos, haviam pedaços de árvores soltos e alguns com armações de água formando espécies de piscinas. Quando Inaura chegou perto de um desses quartos, uma cobra pulou contra Inaura e foi barrada pelo vidro. Inexplicavelmente, Inaura não se assustou. Sentiu dentro de si um certo comando e viu que quem tinha mais medo era a cobra. Elas se encararam e a cobra saiu de fininho. O senhor Osvaldo ficou boquiaberto e feliz.
-Acho que você se dará muito bem aqui, Inaura.
- Também acho, senhor. Também acho.
Com o passar dos meses, Inaura se sentia cada vez mais feliz com seu trabalho e ficava mais e mais curiosa em relação ao covil. Sempre que podia, pedia ao Senhor Osvaldo para observar quando ele trabalhava. Por algumas vezes, ele a permitia transportar as cobras. E Inaura o fazia com maestria. Era de admirar a facilidade que Inaura as dominava. Como um encanto, ela as trazia e levava sem qualquer perturbação.
Em uma certa madrugada, senhor Osvaldo bateu na porta do quarto de Inaura e fez o convite que mudaria sua vida.
-Quer ir buscar cobras?
Com um pulo da cama para dentro da roupa, Inaura nem pensou. Ansiava por esse momento, desde quando ouviu as estórias de senhor Osvaldo.  Quantas aventuras, suspense,cuidado e mistério há em cada cobra. Foram em direção à floresta, noite escura ainda, mas Inaura não conseguia pensar, ver ou ouvir nada. Os olhos arregalados buscavam, pela estrada, famintos por visão de cobras. Senhor Osvaldo dividia sua atenção entre dirigir e admirar a excitação de Inaura.
Quando chegaram no ponto central da floresta, senhor Osvaldo disse:
- De agora para frente, não podemos mais fazer barulho. Temos que nos conectar com os sons que as cobras produzem desde a respiração até seu silvio. 
Inaura saiu do carro e, quase sem qualquer barulho, deitou-se em um tronco. Senhor Osvaldo já havia visto a moça fazer este mesmo ato com uma das cobras sem veneno do laboratório. Achou até engraçado antes, porém naquele momento, ele achava um tanto perigoso. Estava na dúvida se a tirava dali ou confiava. Antes de qualquer ação dele, Inaura em uma varada de braço, pôs a mão perto do pé e trouxe até seus olhos uma peçonhenta jararaca pela cabeça. Osvaldo imediatamente tratou de pegar a gaiola e a guardou.
-Como fez isso?
- Não sei explicar, senhor. Mas consigo senti-las antes de ver.
Naquela noite, antes do amanhecer, Osvaldo trouxe consigo 5 venenosas. A rapidez e domínio de Inaura encantavam o farmacêutico. Ele contava a todos sobre o poder da moça com orgulho. Aos poucos, alguns desconfiados foram desafiando Inaura a capturar cobras em fazendas e casarões onde as cobras eram vistas. E Inaura não perdia uma. Capturava todas. Com o passar dos anos, ficou oficialmente conhecida como a moça das cobras. Todos sabiam de sua reputação e iam atrás de seu socorro quando avistavam um desses répteis.
Senhor Osvaldo a promoveu a auxiliar de laboratório e contratou uma outra moça para a faxina.
Um dia, o novo prefeito, Sr.Figueiredo, ia ao bairro conhecer de perto os cidadãos e, em especial a tal moça das cobras. Achando aquele sucesso muito divertido, Inaura resolveu comprar um vestido novo. Pediu o dia de folga para o senhor Osvaldo e foi se arrumar no salão. Chegou, colocou a roupa nova e foi até a farmácia ver se tinha a aprovação de seu patrão. Ele a olhou com espanto porque não decifrava quem era aquela linda mulher por uns segundos.
-Como estou?
-Linda!
-Eles já devem estar chegando.
- Quem?
- Ué, o prefeito e a esposa. Não foi isso que disseram?
-Ah, sim. Claro! – após uma pausa – Inaura, você gostaria de tomar um sorvete depois que tudo isso acabar?
-Ele chegou, ele chegou! O prefeito tá aí! Os gritos da criançada não permitiram a resposta de Inaura soar.
Carros buzinando, fogos estourando, gritos alegres anunciavam a presença ilustre. Um homem alto e magro entrou na farmácia e perguntou:
-Quem é a moça?
-Sou eu – disse Inaura. – Você é o Sr. Figueiredo?
-Não, sou o assistente dele. Ele chegará com a esposa em cinco minutos e não ficará mais do que três. O horário dele está bem atrasado. Você está pronta?
Antes de Inaura responder, dois rostos familiares para Inaura apareceram na porta. O assistente anunciou nesse momento:
-Senhor Prefeito Renato Figueiredo e a primeira-dama Vanessa Figueiredo.
Inaura tremia por dentro. Uma mistura de medo, ansiedade e nervosismo fazia com que ela não sentisse mais o chão. Ela não conseguia acreditar naquela brincadeira do destino. As lembranças se misturavam com pensamentos paranóicos que passavam por sua cabeça imaginando que tudo havia sido armado. Senhor Osvaldo percebia algo de muito estranho no ar, resolveu pegar em suas mãos. Elas estavam geladas e trêmulas. Ele apertou uma delas e fez Inaura olhar para ele, confirmando para o rosto pálido de sua assistente a força de sua amizade não importando o que aconteceria nos próximos cinco minutos.
Quando chegaram perto de Inaura, Renato e Vanessa demonstraram sorrisos secos e cínicos. E Renato disse:
-Que mundo pequeno! Como poderia saber, ao menos desconfiar que aquela frágil menina fosse se transformar na tal... como se diz? ... ééé...
-Moça das cobras! – anunciou o assistente do prefeito.
-Sim! Moça das cobras.
-Como está Inaura?  - disse Vanessa.
Inaura tirou toda força de si para manter a compostura  e responder:
-Estou bem, senhora primeira-dama. Como estão todos da sua família?
-Todos bem, graças a Deus.
-Bom... – disse o prefeito – não podemos ficar mais. Foi um prazer estar com vocês. E Inaura, devo dizer que estou deveras surpreso com sua fama e o fato de ser ... bem... você, não é?- O ar condescendente de Renato colocava em Inaura o mesmo pânico e nojo que sentiu no dia do ataque da cozinha.
Deram as costas e saíram levando consigo toda a parafernália de gente.
Finalmente, Inaura pode sentar, respirar, chorar e contar com detalhes tudo que havia acontecido com ela até sua chegada na farmácia a senhor Osvaldo.
Ele ouviu atentamente se compadecendo de cada dor daquela mulher que desnudava sua alma na frente dele. Ao final, ele a abraçou forte, e ela se deixou entregar nos braços dele aos prantos. Apesar de tentar, Osvaldo não conseguiu conter todas as lágrimas. Ao olhá-la nos olhos e sentir a fragilidade daquela domadora de cobras, instintivamente atravessou o espaço que os separava e a beijou. Ela devolveu o beijo com afeto, gratidão, calor e o envolveu com braços e pernas como se agarrasse a seu último suspiro de vida. Foram para o quarto dele. O momento de entrega foi delicado e apaixonado. Ele beijava seu corpo com sede dos sôfregos, lambia suas curvas e delícias e seu tesão aumentava a cada gemido e entrega de Inaura. Por mais alucinado em tê-la inteiramente dele, percebeu sua virgindade que foi confirmada pelo olhar de sua parceira amada. Com cuidado, trouxe para aquele momento o deleite que apenas  o verdadeiro amor pode causar, tornando seus corpos em uma fusão etérea. A cumplicidade estava completa.  Pertenciam um ao outro.
Os dias passavam e a alegria os rodeava como o ar. Nada havia de ser tão perfeito como aqueles momentos.
Entretanto, um dia, uma intimação chegou para Osvaldo pedindo esclarecimentos sobre pendências nas contabilidades de sua farmácia. Quando voltou do fórum, Osvaldo estava distante e nervoso. Inaura sentia algo diferente, insistiu para que ele lhe dissesse o que estava de errado, mas ele nada dizia.
Quando acordou, Inaura olhou pela janela e o céu degradia em seus azuis em direção ao amanhecer. Viu que acordava sozinha, o que havia se tornado incomum nos últimos meses. Foi até a cozinha para fazer café e viu a casa vazia. Sentiu um estranho aperto no coração e foi em busca de Osvaldo pela casa. Descobriu o abandono. Suas roupas não estavam mais lá, seu carro não mais estacionava na garagem e uma carta foi deixada em cima da mesa com alguns documentos:
“Querida Inaura,
                Sei que vou te machucar muito saindo de sua vida dessa forma, mas não vejo outra forma de você ter o direito de se refazer. Sou covarde. Não nego. Mas ainda assim, minhas intenções são as melhores e sempre em prol de sua felicidade.
                Na audiência sobre as pendências da farmácia, Vanessa ameaçou destruir você, te prendendo por bruxaria. Fiz, então, um acordo com ela. Eu te deixaria e ela também.  Gostaria que acreditasse que fiz porque lhe amo. Espero que um dia entenda.
                Deixo os documentos para que tudo da farmácia, da casa e do terreno passe para seu nome. Deixo também, uma boa quantia em dinheiro para que tenha uma vida tranqüila.
                Sempre seu,
                                                               Osvaldo”
Inaura queria matar e morrer. O ódio queimava as pontas dos dedos das mãos e pés, subiam braços e pernas até explodirem em seu coração. Nenhuma lágrima caiu de seus olhos. Nenhum pensamento cruzou sua mente. Ela desceu no subsolo da farmácia, abriu todas  as grades, e como um grande exército, as cobras marcharam seguindo Inaura até o outro lado da cidade. Na porta da prefeitura, naquela manhã, o senhor prefeito e sua esposa chegavam.  A rua, quase deserta , se esvaziava ainda mais com a chegada de Inaura. O prefeito tentou ponderar com a moça, Vanessa viu o ódio nos olhos de Inaura, e sentiu o sangue na boca.
                -Você não é capaz de me destruir. Nunca foi e jamais será. Você pequena, medíocre, vulgar. Por isso se dá com as cobras, pois tem que rastejar, Inaura. Você sempre será ninguém. E toda vez que atravessar meu caminho, eu vou te destruir.

A polícia já estava toda preparada para atirar. Inaura não se mexeu. Olhou dentro dos olhos de Vanessa , viu que aquele presente tinha que ser finalizado para que ela tivesse um futuro. Respirou fundo, deu dois passos para trás e deu um grito tão alto que desnorteou todos os presentes. Quando voltaram a si, Inaura não estava mais lá e Vanessa estava caída no chão com mais de oitenta mordidas de cobras. Ninguém quis ir contra Inaura. Ainda hoje, ninguém contesta suas decisões.

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