Desde a minha chegada, jamais tinha visto tanta
aberração. Sentei no chão, contra a parede bem no cantinho,
impotente só podendo chorar. A revolta subia do estômago ao coração até a
garganta, e eu engolia tudo de volta no choro. Os gritos rasgavam meus ouvidos
esganiçados de dor, se uniam às risadas dos homens bêbados que se deliciavam a
cada estouro.
Comecei a me lembrar quantas vezes as pessoas me falavam que
era inútil naquela cidade pequena, com aquela mentalidade tacanha, eu discutir
nobreza e misericórdia. “As pessoas daqui são assim mesmo!”, me diziam. Eu ainda lutava contra esse
pensamento mesmo sendo motivo para risadas na rua. Agora me dava conta que lutei
pouco demais. A arrogância dos homens de sentirem superiores a outros não
deixavam que se percebessem iguais.
Por várias vezes, me deparei com um dos mais indômitos
seres, Juvenal. Ao ver sua crueldade com uma mãe e seu filhote, confrontei-o com
toda minha coragem. Ele se virou contra mim, e os pobres puderam fugir.
- Eu faço o que eu quiser, do jeito que eu quiser! – Disse
ele com uma faca na mão.
- Você não fará nenhuma crueldade comigo por perto! Isso, eu
juro!
Os olhos deles vidraram nos meus com ódio dilacerante, seu
nariz suado quase se encostava no meu, o bafo de cachaça impregnava em minha
narina e me deixavam levemente tonta. Mas me segurei firme e o enfrentei até sua saída me
jurando vingança.
Por muitas vezes, ganhei as disputas com Juvenal, o que
aumentou sua raiva chegando àquela manhã.
Em um dia, eu andava pelas ruas e observei uma certa
calmaria no ar. Apenas a pequena
Chiclete na calçada a se lamber.Chiclete era uma gata de rua que sempre bebia
da água que eu colocava na frente da loja. Deitava ao sol e espreguiçava
longamente até que passasse alguém. Para qualquer um, ela parecia sorrir e
todos se derretiam e acabavam dando comida a ela. Ela grudava no coração de
qualquer um, dizia dona Maria, minha vizinha de frente. Daí a chamamos de
Chiclete. Ela apareceu prenha um dia. Já bem barriguda. O cuidado das pessoas
aumentou e algumas já disputavam filhotinhos.
Quando caiu a noite, fechei a loja e já saía pelos fundos
quando dois homens agarraram meus braços, me levantaram e me levaram até um
beco. No meio da luta, reconheci Valdo, que era um dos capangas de Juvenal. Eu gritava
e esperneava como louca mas era tudo um grande deserto. Fecharam uma grade na
minha frente em que eu podia ver até o outro lado da rua. A imagem de Juvenal
crescia ao vir em minha direção, e dizia:
-Já lhe falei que eu faço do jeito que eu quiser. E vou te
provar.
Nas mãos, Chiclete com fogos de artifício grudados por todo
o corpo.
Não há ser mais cruel do que o que ataca o indefeso para
machucar aquele que lhe dá medo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário