quinta-feira, 24 de março de 2016

Quando o mundo muda



Uma das coisas que mais muda quando a gente muda é nossa perspectiva. Em todos os aspectos, a perspectiva é o que nos faz perceber que a mudança realmente chegou. Observar aquele bicho acuado, esperando de longe que eu jogasse o osso para que ela pegasse fez ficar claro pra mim que era diferente aquela relação. Mesmo com um osso na minha mão, a cachorra  teve muita precaução para chegar cada vez mais um pouquinho perto de mim e talvez encostar, com o pescoço esticado, olhos vigilantes em mim, o corpo todo pra trás e abocanhou o osso e saiu correndo. Deitou no meio do quintal, longe de todos, ficou de olho nos humanos e comeu o osso, deliciosamente sozinha.
Fiquei pensando quantas vezes aquela cachorra apanhou por chegar perto de comida, talvez um prato deixado abandonado, e lhe chegaram por trás e deram um susto com um tapa forte: “Sai daqui, cachorro!!”. Aos poucos percebia medos que se relacionariam a essa parte do passado como medo de colher e garfo. Demorei mais de dois meses para passar a mão debaixo de seu focinho.
Arredia, esguia, elegante, ela andava por entre o mato como se fosse dona daquele mundo. E era. Cada folha, pássaro, boi, gentes, conheciam aquela loura. Contavam estórias comuns dos nativos que pareciam lendas para quem era novo na região. Ela era de um sem-terra que a mantinha presa o dia todo sem comer, foi pesada no sal quando nasceu e por isso não pegava filhote, na construção da casa era a primeira a chegar, a última a sair e nunca faltou o serviço, houve a vez que tocando boi bateu no fio da cerca e voltou cheia de vergonha.
Eu achava crendices, bobagens do povo que bebia demais todo fim do dia. Ao conhecer essa cachorra, sabia que tudo era possível. Eu conheci uns cachorros na capital que foram para Itália e voltaram, um que foi a Nova York e andou na Times Square. Mas nenhum cachorro tinha nas mãos o mundo como essa.
Ao perceber seus tremores, eu sabia que ela estava doente. Nesse período, ela já comia na minha mão, deixava eu colocar remédio na garganta dela, me pedia carinho, confiava em mim. Eu sabia que era doença do carrapato. Eu achava que ela tinha que ficar dentro de casa, para que eu pudesse tomar conta direitinho dela, mas me diziam: “Não, é cachorra do mundo. Não nasceu pra ficar presa.”

Ela havia dormido durante o dia e tomado o remédio direitinho como o veterinário mandou. A minha esperança havia voltado. Lá pelas 4 da manhã, ela me acorda com medo nos olhos, sentei no chão com medo também, a respiração tinha piorado muito. Quando eu olhava nos seus olhos, uma luz muito forte explodiu no quarto. Olhei pra fora e não vi nuvem para raios. Voltei minha atenção para ela e a luz explodiu novamente. Olhei para o teto, e vi sete vagalumes piscando dando a luz para seu caminho. Essa guerreira iria seguir a luz. Por duas horas, ela buscou ar para seus pulmões que não funcionavam mais muito bem. Ao nascer do sol, ela correu com suas patas enfraquecidas pra fora, para seu mundo de verde, de flores, de pássaros e respirou pela última vez. Soltou o ar quando eu a abracei, e ela olhou nos meus olhos. Meu mundo nunca mais será o mesmo.

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