quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O bicho homem

Desde a minha chegada, jamais tinha visto tanta aberração.  Sentei  no chão, contra a parede bem no cantinho, impotente só podendo chorar. A revolta subia do estômago ao coração até a garganta, e eu engolia tudo de volta no choro. Os gritos rasgavam meus ouvidos esganiçados de dor, se uniam às risadas dos homens bêbados que se deliciavam a cada estouro.
Comecei a me lembrar quantas vezes as pessoas me falavam que era inútil naquela cidade pequena, com aquela mentalidade tacanha, eu discutir nobreza e misericórdia. “As pessoas daqui são assim mesmo!”,  me diziam. Eu ainda lutava contra esse pensamento mesmo sendo motivo para risadas na rua. Agora me dava conta que lutei pouco demais. A arrogância dos homens de sentirem superiores a outros não deixavam que se percebessem iguais.
Por várias vezes, me deparei com um dos mais indômitos seres, Juvenal. Ao ver sua crueldade com uma mãe e seu filhote, confrontei-o com toda minha coragem. Ele se virou contra mim, e os pobres puderam fugir.
- Eu faço o que eu quiser, do jeito que eu quiser! – Disse ele com uma faca na mão.
- Você não fará nenhuma crueldade comigo por perto! Isso, eu juro!
Os olhos deles vidraram nos meus com ódio dilacerante, seu nariz suado quase se encostava no meu, o bafo de cachaça impregnava em minha narina e me deixavam levemente tonta. Mas me  segurei firme e o enfrentei até sua saída me jurando vingança.
Por muitas vezes, ganhei as disputas com Juvenal, o que aumentou sua raiva chegando àquela manhã.
Em um dia, eu andava pelas ruas e observei uma certa calmaria no ar. Apenas  a pequena Chiclete na calçada a se lamber.Chiclete era uma gata de rua que sempre bebia da água que eu colocava na frente da loja. Deitava ao sol e espreguiçava longamente até que passasse alguém. Para qualquer um, ela parecia sorrir e todos se derretiam e acabavam dando comida a ela. Ela grudava no coração de qualquer um, dizia dona Maria, minha vizinha de frente. Daí a chamamos de Chiclete. Ela apareceu prenha um dia. Já bem barriguda. O cuidado das pessoas aumentou e algumas já disputavam filhotinhos.
Quando caiu a noite, fechei a loja e já saía pelos fundos quando dois homens agarraram meus braços, me levantaram e me levaram até um beco. No meio da luta, reconheci Valdo, que era um dos capangas de Juvenal. Eu gritava e esperneava como louca mas era tudo um grande deserto. Fecharam uma grade na minha frente em que eu podia ver até o outro lado da rua. A imagem de Juvenal crescia ao vir em minha direção, e dizia:
-Já lhe falei que eu faço do jeito que eu quiser. E vou te provar.
Nas mãos, Chiclete com fogos de artifício grudados por todo o corpo.

Não há ser mais cruel do que o que ataca o indefeso para machucar aquele que lhe dá medo.  

terça-feira, 7 de junho de 2016

Das disparidades da vida

As pessoas deviam ter direitos. O direito essencial é o da oportunidade.  Oportunidade de crescer, desenvolver, amar, casar, ter filhos, uma carreira, ser ministro, astronauta, alcoólatra, ladrão, ter sucesso, se acabar no fracasso, e não que a pessoa faça tudo isso, mas todos deviam ter a oportunidade. O precoce corte de qualquer dessas opções é indubitavelmente uma sacanagem muito grande.
Eu não vou nem levantar a bandeira de que essas oportunidades deveriam ser dignas e iguais para todos, pois o cenário político, econômico, social não nos permite avançar tanto. Quero aqui me ater às coisas e ao mundo natural. Dispenso, para o momento, o princípio de que os homens deveriam amar os outros como a si mesmo, e não explorá-los.
Então partindo do pressuposto de que o mundo é o mundo e a vida é como ela é, acho que erraram, não sei bem quem, ao tirar as oportunidades básicas supra citadas de algumas pessoas. Terríveis coisas passam pela minha cabeça ao ver um estupro de 33 contra 1, a marginalização de duas crianças chegando ao final com um tiro no mínimo questionável ou um afogamento idiota em rio. 
Cada caso tem sua especificidade e devem ser debatido exaustivamente de forma ampla e consciente tendo todos os personagens sociais reconhecendo as responsabilidades que nos cabe.

Pessoalmente, me sinto honrada por estar viva e bem.  Quando mais nova, esses casos não ocorriam com tanta freqüência, ou eu não tinha conhecimento por não estarem próximos do meu castelinho. Mas ainda assim perdi um amigo muito precocemente. Por toda a minha vida, em momentos de extrema alegria ou tristeza pensava o que ele poderia estar fazendo estando em meu lugar. E fora alguns momentos de extrema fraqueza em que gostaria de trocar de lugar com esse amigo, em vários momentos tentei honrá-lo e viver da forma mais intensa possível. Honremos, então, os nosso destruídos pela bestialidade, desumanização, idiotice. Não pode ser em vão, então que seja para aprendermos.  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quando o mundo muda



Uma das coisas que mais muda quando a gente muda é nossa perspectiva. Em todos os aspectos, a perspectiva é o que nos faz perceber que a mudança realmente chegou. Observar aquele bicho acuado, esperando de longe que eu jogasse o osso para que ela pegasse fez ficar claro pra mim que era diferente aquela relação. Mesmo com um osso na minha mão, a cachorra  teve muita precaução para chegar cada vez mais um pouquinho perto de mim e talvez encostar, com o pescoço esticado, olhos vigilantes em mim, o corpo todo pra trás e abocanhou o osso e saiu correndo. Deitou no meio do quintal, longe de todos, ficou de olho nos humanos e comeu o osso, deliciosamente sozinha.
Fiquei pensando quantas vezes aquela cachorra apanhou por chegar perto de comida, talvez um prato deixado abandonado, e lhe chegaram por trás e deram um susto com um tapa forte: “Sai daqui, cachorro!!”. Aos poucos percebia medos que se relacionariam a essa parte do passado como medo de colher e garfo. Demorei mais de dois meses para passar a mão debaixo de seu focinho.
Arredia, esguia, elegante, ela andava por entre o mato como se fosse dona daquele mundo. E era. Cada folha, pássaro, boi, gentes, conheciam aquela loura. Contavam estórias comuns dos nativos que pareciam lendas para quem era novo na região. Ela era de um sem-terra que a mantinha presa o dia todo sem comer, foi pesada no sal quando nasceu e por isso não pegava filhote, na construção da casa era a primeira a chegar, a última a sair e nunca faltou o serviço, houve a vez que tocando boi bateu no fio da cerca e voltou cheia de vergonha.
Eu achava crendices, bobagens do povo que bebia demais todo fim do dia. Ao conhecer essa cachorra, sabia que tudo era possível. Eu conheci uns cachorros na capital que foram para Itália e voltaram, um que foi a Nova York e andou na Times Square. Mas nenhum cachorro tinha nas mãos o mundo como essa.
Ao perceber seus tremores, eu sabia que ela estava doente. Nesse período, ela já comia na minha mão, deixava eu colocar remédio na garganta dela, me pedia carinho, confiava em mim. Eu sabia que era doença do carrapato. Eu achava que ela tinha que ficar dentro de casa, para que eu pudesse tomar conta direitinho dela, mas me diziam: “Não, é cachorra do mundo. Não nasceu pra ficar presa.”

Ela havia dormido durante o dia e tomado o remédio direitinho como o veterinário mandou. A minha esperança havia voltado. Lá pelas 4 da manhã, ela me acorda com medo nos olhos, sentei no chão com medo também, a respiração tinha piorado muito. Quando eu olhava nos seus olhos, uma luz muito forte explodiu no quarto. Olhei pra fora e não vi nuvem para raios. Voltei minha atenção para ela e a luz explodiu novamente. Olhei para o teto, e vi sete vagalumes piscando dando a luz para seu caminho. Essa guerreira iria seguir a luz. Por duas horas, ela buscou ar para seus pulmões que não funcionavam mais muito bem. Ao nascer do sol, ela correu com suas patas enfraquecidas pra fora, para seu mundo de verde, de flores, de pássaros e respirou pela última vez. Soltou o ar quando eu a abracei, e ela olhou nos meus olhos. Meu mundo nunca mais será o mesmo.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ofídico

Ofídico

Inaura não sabia seu nome.  Sabia que não era Inaura, mas não sabia qual era. A mãe dela a deu para este casal com duas filhas para que ela ajudasse na casa já que as meninas estavam com idade para a escola. Ela havia nascido após quatro e antes de outros nove. E como não havia comida e cama para todos, essa foi a saída. Na nova casa, ela era chamada de Inaura. E para quem chamava, ela respondia.
As meninas iam para a escola. Inaura limpava a casa, fazia almoço, fazia as compras e tudo aquilo que Dona Valdete lhe ensinava ou pedia. Dona Valdete a tratava com cuidado e firmeza, dando a Inaura desconfiança e afeto. Por dona Valdete, ela fazia tudo.  Aprendia com rapidez e evoluía com desenvoltura. Às vezes, Inaura pegava dona Valdete com soslaios de orgulho, e imediatamente, quando descoberta, voltava aos seus olhos firmes.
Quando chegava o fim da tarde, as meninas chegavam da escola, tomavam o lanche e se punham a fazer o dever de casa. Iniciavam o de matemática, finalizavam, fechavam o livro, e o dava para Inaura. Inaura os devorava como sorvetes em dia de verão. Alice, a mais nova, havia ensinado Inaura a ler e tirava suas dúvidas sempre que apareciam. Quando tinha a necessidade de debater para maior entendimento de alguma questão, Alice procurava Inaura. Nesses momentos, Inaura se sentia importante e valorizada. Ficava feliz por aprender e poder ajudar nos âmbitos da ciência.
Um dia, ao sair da sala de estudos, ouviu de Vanessa:
- Continuo não entender por que você dá corda a essa menininha... É inútil. Não vai levar ninguém a lugar nenhum. É só perda de seu tempo.
-Ah, Vanessa.... eu gosto e não me custa.
-Para mim, como diz na Bíblia, é jogar pérolas aos porcos.
Aquilo machucou Inaura, mas ela se calou para não aborrecer Alice, que poderia não querer confrontar a irmã mais velha.
Com o passar do tempo, o laço entre Alice e Inaura se estreitava e a amizade crescia. Cada vez mais, Inaura sentia o desprezo de Vanessa em olhares e palavras de rispidez e sarcasmo. Algumas vezes, Vanessa incluía a irmã na grosseria que fazia. Inaura tentava não se importar e fingir que não era com ela. Trocava olhares de cumplicidade com Alice, o que lhe dava uma certa segurança.
Todos os dias Inaura voltando da padaria passava por Renato, namorado de Vanessa. O pai dele tinha um pequeno armazém na esquina da casa delas. Renato sempre cumprimentava gentilmente, e ela respondia pensando o que será que ele havia visto nela.
Vanessa era linda. Esguia, com pele branca e cabelos castanhos cujos cachos se enrolavam nas pontas, sempre com unhas bem cuidadas e um leve batom que realçava seus lábios carnudos e bem feitos. Os olhos amendoados e rosto e nariz finos reforçavam sua beleza. Ela mantinha os olhos atentos a tudo e sempre tinha uma resposta na ponta da língua para tudo.
Quando se deu as vésperas da festa da batata, que era a festa maior da cidade, dona Valdete se encheu de encomendas. O trabalho de Inaura triplicou e quase não tinha tempo para os estudos. Por três noites seguidas, Inaura havia dormido uma hora apenas cada. Uma das noites, dona Valdete nem havia dormido. No sábado a tarde, dona Valdete iria entregar as encomendas, chamou Alice e disse a Inaura que ela fosse descansar, pois na hora que voltasse, elas iriam arrumar a casa. Inaura não perdeu tempo. Foi para seu quartinho no fundo da cozinha e nem tirou a roupa, deitou e dormiu. No meio de seu sono, entreabriu os olhos e viu o vulto de uma mulher na porta, o que lhe pareceu ser Vanessa. Mas fechou os olhos e voltou ao seu descanso. De repente, sentiu uma dor forte na testa. Acordou assustada, com o corpo dormente, calafrios e suor. Tentou abrir os olhos, e com a vista embaraçada, ainda conseguiu ver uma cobra saindo do seu quarto. Com o resto de suas forças, gritou a plenos pulmões por ajuda. Não sabia se a voz saía, se alguém ouvia até que desmaiou. Acordou com Astolfo, o vizinho, passando um pano gelado em sua testa.
- Foi um grande susto, Inaura. Consegui tirar todo veneno da picada da cobra, mas vai ficar essa marca na sua testa.
Todos mantinham distância de Astolfo pois diziam que ele era um bruxo. Então como não havia ninguém por perto após sua saída, Inaura preferiu não contar nada para ninguém.  Quando dona Valdete chegou, a  chamou imediatamente para a faxina começar. Inaura, cambaleante e com a vista enevoada, chegou até a sala e deparou com a cara de raiva e susto de Vanessa. Dona Valdete, também assustada, perguntou:
- O que foi isso em sua testa?
- Nada, Dona Valdete, apenas um bicho me mordeu. O que a senhora quer que eu faça primeiro?
Vanessa saiu pisando firme, Dona Valdete, pelo cansaço, se deixou levar pela resposta, mas Alice ficou desconfiada.
- Comece pela cozinha. Depois limpe a sala.
Naquele dia, Inaura descobriu a força que  tinha. Ainda sem sentir os dedos das mãos e dos pés, fez toda a faxina. Desde então nunca mais duvidou de si.
Quando o término da escola foi chegando, Renato foi à casa pedir oficialmente a mão de Vanessa em casamento. Foram preparados salgadinhos, caldos e pães de todos os tipos. A mesa quase não cabia tudo de tão cheia. Inaura os fez com muito cuidado e carinho. Não por Vanessa, mas pela idéia do casamento poder tirá-la da casa. Desde o episódio da cobra, Vanessa e Inaura já não conversavam além do essencial. Apenas entre elas, estava declarada uma guerra. Inaura sabia do risco que corria, já que era o lado mais fraco. Mas não se importava. Achava que era melhor uma inimiga declarada do que uma traidora enrustida. E ainda tinha a felicidade de não precisar ficar fingindo, o que lhe era um alívio.
A festa foi um sucesso. O rapaz propôs, a moça aceitou. Todos comeram muito. Beberam além da conta. Ficaram felizes. O que deixou Inaura bastante satisfeita. Ao final, restaram apenas Dona Valdete e as meninas, Renato, o pai e a mãe para os últimos acertos para o casório. Inaura vendo todos na sala, pensou em que tipo de acerto tanta gente bêbada podia fazer, se riu e partiu para arrumar a cozinha.
Em paz consigo mesma, Inaura lavava suas vasilhas com tranqüilidade. De repente, sua boca foi tapada e sua cabeça foi puxada para trás dando um solavanco em suas costas e a pressionando contra um outro corpo, deixando-a  com um mínimo de entrada de ar em sua narina. Uma outra mão foi direto em seu seio, rasgando seu vestido, e esfregando com violência. O cheiro de álcool penetrou em todos os sentidos de Inaura, e a única coisa que ela fez, por puro instinto, foi jogar o copo onde ela sentia que tinha uma cabeça. Mesmo sem saber o que estava mirando, acertou a testa, e ouviu um grito de ai. Nesse momento, ela foi solta e correu para o quarto sem olhar para trás. Foi direto para o chuveiro, e chorou desesperadamente. Segundos depois, Dona Valdete a chamou. Ainda com olhos cheios de lágrimas e trêmula, Inaura foi até a sala. Vanessa estava alucinada gritando palavrões, exigindo uma ação da mãe imediatamente.
Dona Valdete então perguntou:
- Inaura, foi você quem fez isso? Foi você quem machucou Renato, jogando-lhe um copo na testa?
Inaura se assustou vendo a imagem de Renato sangrando um rio de sangue, todos olhando para ela.  Vanessa estava furiosa e foi segurada pela irmã. Sem saída da situação, Inaura correu em direção a rua sem destino. Parou ao sol nascer. E pôde se acalmar. Respirou fundo. Decidiu voltar a casa, mesmo que fosse para pegar suas coisas. Todos dormiam. Entrou. Pegou suas roupas. E na saída, foi interrompida por Alice.
- Para onde você vai?
- Não sei, Alice.
- Acho que você está fazendo a coisa certa.
-Você também acha que sou culpada.
- Não sei. Acho que não. Mas isso não importa. Tome, este dinheiro vai te ajudar por alguns dias.
-Alice, nunca te esquecerei. Se eu puder, lhe pago em dobro.
-Vá, minha amiga e tente ser feliz.
Inaura saiu em prantos dos braços da única amiga que teve em toda sua vida.Ela sabia que nenhuma outra amizade seria igual a de Alice e por isso seria sempre grata.
Ao final da cidade, viu um anúncio de emprego em uma farmácia. Entrou e perguntou qual era o serviço, e para sua sorte era o de faxina. Começou imediatamente. O dono da farmácia era o Senhor Osvaldo. Ele era da cidade mas estudou toda vida e se formou na faculdade de farmácia da capital. Era um homem muito sério e distinto. Ensinou passo a passo o tipo de faxina Inaura iria fazer. Ela teria que limpar todo o laboratório onde ele produzia as alopatias, homeopatias etc. A sua especialidade era soro fisiológico.
- O que é isso? Perguntou curiosa Inaura.
- É o que tomamos quando levamos uma picada de cobra.
Nesse momento, Inaura levou sua mão a testa. E foi a vez de acender a curiosidade de Osvaldo.
-Isso é uma picada de cobra, não?
-Sim. Mas preferiria não falar sobre isso, se o senhor não se importar.
- Tudo bem. Vamos, vou te mostrar todo o local.
E foi lhe mostrando em detalhes já dando a Inaura toda a explicação da limpeza com detalhes. Por último, bem lá no fundo havia uma porta. Ele se virou e disse:
-Inaura, vou lhe mostrar o maior quarto que tenho no estabelecimento. Este quarto, você só limpará se e quando estiver se sentindo á vontade. Tudo bem?
Ela confirmou com a cabeça apreendida sem saber o que vinha pela frente.
Quando ele abriu a porta, Inaura viu vários pequenos quartos separados com paredes entre si e vidros à frente com trancas. Dentro desses quartos, haviam pedaços de árvores soltos e alguns com armações de água formando espécies de piscinas. Quando Inaura chegou perto de um desses quartos, uma cobra pulou contra Inaura e foi barrada pelo vidro. Inexplicavelmente, Inaura não se assustou. Sentiu dentro de si um certo comando e viu que quem tinha mais medo era a cobra. Elas se encararam e a cobra saiu de fininho. O senhor Osvaldo ficou boquiaberto e feliz.
-Acho que você se dará muito bem aqui, Inaura.
- Também acho, senhor. Também acho.
Com o passar dos meses, Inaura se sentia cada vez mais feliz com seu trabalho e ficava mais e mais curiosa em relação ao covil. Sempre que podia, pedia ao Senhor Osvaldo para observar quando ele trabalhava. Por algumas vezes, ele a permitia transportar as cobras. E Inaura o fazia com maestria. Era de admirar a facilidade que Inaura as dominava. Como um encanto, ela as trazia e levava sem qualquer perturbação.
Em uma certa madrugada, senhor Osvaldo bateu na porta do quarto de Inaura e fez o convite que mudaria sua vida.
-Quer ir buscar cobras?
Com um pulo da cama para dentro da roupa, Inaura nem pensou. Ansiava por esse momento, desde quando ouviu as estórias de senhor Osvaldo.  Quantas aventuras, suspense,cuidado e mistério há em cada cobra. Foram em direção à floresta, noite escura ainda, mas Inaura não conseguia pensar, ver ou ouvir nada. Os olhos arregalados buscavam, pela estrada, famintos por visão de cobras. Senhor Osvaldo dividia sua atenção entre dirigir e admirar a excitação de Inaura.
Quando chegaram no ponto central da floresta, senhor Osvaldo disse:
- De agora para frente, não podemos mais fazer barulho. Temos que nos conectar com os sons que as cobras produzem desde a respiração até seu silvio. 
Inaura saiu do carro e, quase sem qualquer barulho, deitou-se em um tronco. Senhor Osvaldo já havia visto a moça fazer este mesmo ato com uma das cobras sem veneno do laboratório. Achou até engraçado antes, porém naquele momento, ele achava um tanto perigoso. Estava na dúvida se a tirava dali ou confiava. Antes de qualquer ação dele, Inaura em uma varada de braço, pôs a mão perto do pé e trouxe até seus olhos uma peçonhenta jararaca pela cabeça. Osvaldo imediatamente tratou de pegar a gaiola e a guardou.
-Como fez isso?
- Não sei explicar, senhor. Mas consigo senti-las antes de ver.
Naquela noite, antes do amanhecer, Osvaldo trouxe consigo 5 venenosas. A rapidez e domínio de Inaura encantavam o farmacêutico. Ele contava a todos sobre o poder da moça com orgulho. Aos poucos, alguns desconfiados foram desafiando Inaura a capturar cobras em fazendas e casarões onde as cobras eram vistas. E Inaura não perdia uma. Capturava todas. Com o passar dos anos, ficou oficialmente conhecida como a moça das cobras. Todos sabiam de sua reputação e iam atrás de seu socorro quando avistavam um desses répteis.
Senhor Osvaldo a promoveu a auxiliar de laboratório e contratou uma outra moça para a faxina.
Um dia, o novo prefeito, Sr.Figueiredo, ia ao bairro conhecer de perto os cidadãos e, em especial a tal moça das cobras. Achando aquele sucesso muito divertido, Inaura resolveu comprar um vestido novo. Pediu o dia de folga para o senhor Osvaldo e foi se arrumar no salão. Chegou, colocou a roupa nova e foi até a farmácia ver se tinha a aprovação de seu patrão. Ele a olhou com espanto porque não decifrava quem era aquela linda mulher por uns segundos.
-Como estou?
-Linda!
-Eles já devem estar chegando.
- Quem?
- Ué, o prefeito e a esposa. Não foi isso que disseram?
-Ah, sim. Claro! – após uma pausa – Inaura, você gostaria de tomar um sorvete depois que tudo isso acabar?
-Ele chegou, ele chegou! O prefeito tá aí! Os gritos da criançada não permitiram a resposta de Inaura soar.
Carros buzinando, fogos estourando, gritos alegres anunciavam a presença ilustre. Um homem alto e magro entrou na farmácia e perguntou:
-Quem é a moça?
-Sou eu – disse Inaura. – Você é o Sr. Figueiredo?
-Não, sou o assistente dele. Ele chegará com a esposa em cinco minutos e não ficará mais do que três. O horário dele está bem atrasado. Você está pronta?
Antes de Inaura responder, dois rostos familiares para Inaura apareceram na porta. O assistente anunciou nesse momento:
-Senhor Prefeito Renato Figueiredo e a primeira-dama Vanessa Figueiredo.
Inaura tremia por dentro. Uma mistura de medo, ansiedade e nervosismo fazia com que ela não sentisse mais o chão. Ela não conseguia acreditar naquela brincadeira do destino. As lembranças se misturavam com pensamentos paranóicos que passavam por sua cabeça imaginando que tudo havia sido armado. Senhor Osvaldo percebia algo de muito estranho no ar, resolveu pegar em suas mãos. Elas estavam geladas e trêmulas. Ele apertou uma delas e fez Inaura olhar para ele, confirmando para o rosto pálido de sua assistente a força de sua amizade não importando o que aconteceria nos próximos cinco minutos.
Quando chegaram perto de Inaura, Renato e Vanessa demonstraram sorrisos secos e cínicos. E Renato disse:
-Que mundo pequeno! Como poderia saber, ao menos desconfiar que aquela frágil menina fosse se transformar na tal... como se diz? ... ééé...
-Moça das cobras! – anunciou o assistente do prefeito.
-Sim! Moça das cobras.
-Como está Inaura?  - disse Vanessa.
Inaura tirou toda força de si para manter a compostura  e responder:
-Estou bem, senhora primeira-dama. Como estão todos da sua família?
-Todos bem, graças a Deus.
-Bom... – disse o prefeito – não podemos ficar mais. Foi um prazer estar com vocês. E Inaura, devo dizer que estou deveras surpreso com sua fama e o fato de ser ... bem... você, não é?- O ar condescendente de Renato colocava em Inaura o mesmo pânico e nojo que sentiu no dia do ataque da cozinha.
Deram as costas e saíram levando consigo toda a parafernália de gente.
Finalmente, Inaura pode sentar, respirar, chorar e contar com detalhes tudo que havia acontecido com ela até sua chegada na farmácia a senhor Osvaldo.
Ele ouviu atentamente se compadecendo de cada dor daquela mulher que desnudava sua alma na frente dele. Ao final, ele a abraçou forte, e ela se deixou entregar nos braços dele aos prantos. Apesar de tentar, Osvaldo não conseguiu conter todas as lágrimas. Ao olhá-la nos olhos e sentir a fragilidade daquela domadora de cobras, instintivamente atravessou o espaço que os separava e a beijou. Ela devolveu o beijo com afeto, gratidão, calor e o envolveu com braços e pernas como se agarrasse a seu último suspiro de vida. Foram para o quarto dele. O momento de entrega foi delicado e apaixonado. Ele beijava seu corpo com sede dos sôfregos, lambia suas curvas e delícias e seu tesão aumentava a cada gemido e entrega de Inaura. Por mais alucinado em tê-la inteiramente dele, percebeu sua virgindade que foi confirmada pelo olhar de sua parceira amada. Com cuidado, trouxe para aquele momento o deleite que apenas  o verdadeiro amor pode causar, tornando seus corpos em uma fusão etérea. A cumplicidade estava completa.  Pertenciam um ao outro.
Os dias passavam e a alegria os rodeava como o ar. Nada havia de ser tão perfeito como aqueles momentos.
Entretanto, um dia, uma intimação chegou para Osvaldo pedindo esclarecimentos sobre pendências nas contabilidades de sua farmácia. Quando voltou do fórum, Osvaldo estava distante e nervoso. Inaura sentia algo diferente, insistiu para que ele lhe dissesse o que estava de errado, mas ele nada dizia.
Quando acordou, Inaura olhou pela janela e o céu degradia em seus azuis em direção ao amanhecer. Viu que acordava sozinha, o que havia se tornado incomum nos últimos meses. Foi até a cozinha para fazer café e viu a casa vazia. Sentiu um estranho aperto no coração e foi em busca de Osvaldo pela casa. Descobriu o abandono. Suas roupas não estavam mais lá, seu carro não mais estacionava na garagem e uma carta foi deixada em cima da mesa com alguns documentos:
“Querida Inaura,
                Sei que vou te machucar muito saindo de sua vida dessa forma, mas não vejo outra forma de você ter o direito de se refazer. Sou covarde. Não nego. Mas ainda assim, minhas intenções são as melhores e sempre em prol de sua felicidade.
                Na audiência sobre as pendências da farmácia, Vanessa ameaçou destruir você, te prendendo por bruxaria. Fiz, então, um acordo com ela. Eu te deixaria e ela também.  Gostaria que acreditasse que fiz porque lhe amo. Espero que um dia entenda.
                Deixo os documentos para que tudo da farmácia, da casa e do terreno passe para seu nome. Deixo também, uma boa quantia em dinheiro para que tenha uma vida tranqüila.
                Sempre seu,
                                                               Osvaldo”
Inaura queria matar e morrer. O ódio queimava as pontas dos dedos das mãos e pés, subiam braços e pernas até explodirem em seu coração. Nenhuma lágrima caiu de seus olhos. Nenhum pensamento cruzou sua mente. Ela desceu no subsolo da farmácia, abriu todas  as grades, e como um grande exército, as cobras marcharam seguindo Inaura até o outro lado da cidade. Na porta da prefeitura, naquela manhã, o senhor prefeito e sua esposa chegavam.  A rua, quase deserta , se esvaziava ainda mais com a chegada de Inaura. O prefeito tentou ponderar com a moça, Vanessa viu o ódio nos olhos de Inaura, e sentiu o sangue na boca.
                -Você não é capaz de me destruir. Nunca foi e jamais será. Você pequena, medíocre, vulgar. Por isso se dá com as cobras, pois tem que rastejar, Inaura. Você sempre será ninguém. E toda vez que atravessar meu caminho, eu vou te destruir.

A polícia já estava toda preparada para atirar. Inaura não se mexeu. Olhou dentro dos olhos de Vanessa , viu que aquele presente tinha que ser finalizado para que ela tivesse um futuro. Respirou fundo, deu dois passos para trás e deu um grito tão alto que desnorteou todos os presentes. Quando voltaram a si, Inaura não estava mais lá e Vanessa estava caída no chão com mais de oitenta mordidas de cobras. Ninguém quis ir contra Inaura. Ainda hoje, ninguém contesta suas decisões.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O estouro

Acordei no meio da noite, preocupada com algumas coisas, então achei melhor tomar um leite achocolatado para ver se acalmava. A sala escura, meu irmão dormia com a televisão ligada. Resolvi não acordá-lo, e tomar meu leite no escuro mesmo para não perturbar. Abri a geladeira, pus o leite no copo, aproveitei para sentir um friozinho vindo da geladeira e usar a luz para não derramar o leite no chão. Era só o que me faltava ter que limpar o chão da cozinha no meio da madrugada. Como se não bastasse o dia todo trabalhando.
Peguei a colher, o chocolate em pó, visualizei a televisão. "Não acredito que meu irmão dormiu vendo esse programa horrível!" Coloquei uma colher. "Deve ter dormido antes disso começar!" Coloquei a segunda colher. "Mas como é que isso está no ar?" Misturei o chocolate. "Tem gosto pra tudo nessa vida mesmo." Tomei um gole. "Tanta coisa que podia ser mais educativa, de bom gosto... e as pessoas vêem isso! Credo!" No segundo gole, senti que havia uma bolinha diferente no meu leite. "Hum, que delícia! Deve ser aquelas bolinhas cheias de achocolatado que estouram na nossa boca e espalham areia de chocolate pela língua."
Nesse momento, estourei a bolha com o céu da boca e, para minha surpresa, não veio nenhuma areinha depois do estouro. Ao invés disso, senti espalhar uma gelatina mole por sobre minha boca, sem gosto definido e um cheiro ardido adentrou minha narina. "E agora, o que eu faço? Engulo, cuspo?" Não deu tempo para nada. Aquela plasta molenga e mal cheirosa desceu minha garganta abaixo tomando conta até da minha visão pois eu já não enxergava coisa alguma pois as lágrimas haviam enchido meus olhos de água. Não respirava direito sentindo descer pela garganta aquilo que começava a parecer uma lesma morta de tão vagaroso seu movimento.
Em menos de um segundo tudo  havia acabado. O cheiro havia sumido, não havia gosto em minha língua e a sensação pegajosa havia desaparecido.
Bom é melhor dormir. Amanhã descubro que bicho me mordeu.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Salutem

E de tudo o que ficou foi a breve brisa que leva consigo a imortalidade. Esse sopro que nos bate a cara e desmonta nossa ilusão de que tudo vai dar certo. O que não foi o que aconteceu. Eu te conto o que aconteceu.
Na verdade, eu nos conto porque também tento entender o que me recompõe nesse retorno. Após tantos anos, revendo tantas memórias questiono minha sanidade. Desde a morte de Otávio, os acontecimentos vêm destruindo todos meus pilares e convicções. Um turbilhão sobrevoando minha vida que parece já não me pertencer.
Na primeira semana que estava de volta a Moraí, uma esperança de que tudo havia mudado tomou conta de mim. Quase me cegava essa ansiedade de ver o novo em qualquer lugar. As ruas estavam no mesmo lugar com lojas diferentes. Onde antes era a farmácia do seu  Alaor, que sempre dava balas no dia de São Cosme e Damião, hoje se transformara em uma loja de vestidos de marca. Onde era a oficina do Cléber com um cachorro preto imenso de vigia, agora se via um galpão alto improvisado como restaurante de comida estado-unidense. Minha cidade não existia mais. Eu tinha que me acostumar a desfazer daquilo que habitava somente minha mente.
Tentei tomar uma atitude de psicologia inversa, olhando apenas para o que nunca havia visto antes. Toda vez que me deparava com algo minimamente familiar, passava por cima com pensamentos inquietantemente contraditórios á minha personalidade. Comecei a ignorar os abusos verbais de minha mãe, que tentava insistentemente destruir com todas as minhas escolhas. Meu posicionamento era contrapô-la com frases positivas sobre o mesmo assunto. “-Você só está sozinha porque insistiu nessa loucura de não ter filhos.” “- Não estou sozinha, mamãe, estou com você.” Ela arregalava os olhos, procurava em sua mente uma tréplica não apenas para aquela resposta, mas também uma réplica para aquele posicionamento que destruía com o status quo que estruturava a relação como ela entendia existir. Sem perder mais do que um minuto, soltava “-Viver com uma velha não vai durar muito sua companhia.” Aos poucos e com uma imensa bagagem de paciência, fui tentando conduzir para uma convivência menos perturbadora.
Depois de conseguir um trabalho de diagramação em uma empresa de plotagem, conheci uma prima de uma amiga minha de infância, Carol, que me apresentou a Rosana que era amiga de uma prima minha que cresci junta. Incrível como o mundo é pequeno. Não me lembrava de nenhuma das duas, mas ambas traziam momentos vívidos em suas lembranças de momentos comigo do passado. Mas eu já superava o mais rápido possível essa conversa antes que tocassem em mim qualquer familiaridade.
Comecei a não retornar a bares  e restaurantes que havia ido antes, mudar os caminhos e as formas de ir ao trabalho, dar bons dias em línguas diversas, enfim, tudo o mais novo possível naquela velha cidade. Um certo anseio por qualquer novidade dentro da minha rotina começou a tornar uma obsessão. Internet, dicionários, revistas, tudo isso já não me satisfazia. As pessoas já não me faziam sentido. Parei de conversar. Comecei a conversar com os cachorros nas ruas. Ficava horas trocando olhares e uivos. Me cansei. Busquei os gatos, os ratos, as baratas... tudo naquela cidade já era velho e usado.
Minha chefe me pediu para conversar. Sentei em sua sala. Olhei para um lado, para outro. Três por quatro comum, uma parede com quadro, uma lisa, uma janela e porta, um armário. Uma mesa com papéis, um computador, uma caneta na mão e um discurso chato. Pedi demissão! Conversar nada. Ela queria me dar sermão de como eu estava me comportando. Falava para mim que estava preocupada porque eu não conversava com ninguém e vestia roupas que não fazia o menor sentido. Como se houvesse sentido uma calcinha dentro ou fora da calça. Aquilo já estava ficando velho mesmo. Um mês de trabalho no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, já deu.
Comecei a andar pela cidade. Não aquelas ruas que eu já conhecia. Procurava as ruas que eu nunca tinha ido antes. Pensava quantas pessoas haviam morrido naquele lugar. Onde teria fantasma naquele lugar assombrado. E talvez se eu me comunicasse com eles, a conversa poderia ser outra. Cansei. Sentei. Dormi.
Acordei em uma cama que não era minha. Vi minha mãe e minha irmã conversando com uma pessoa longe e me sentia pesada. Dormi novamente. Acordei com uma pessoa arrumando as coisas ao meu redor. Perguntei onde estava. A moça me respondeu que iria buscar o médico.  Ainda imaginei que se ela estava doente, era bom procurar um médico mesmo. Mas ainda não havia me respondido. Sentei na cama sentindo grogue. O homem de branco chegou,me chamou pelo nome e disse que tudo ia ficar bem, era só eu ficar calma. Eu achei bom. Naquele ritmo frenético do dia-a-dia, todo mundo apavorado, alguém me disse que tudo ia ficar bem. Sorri e ele sorriu de volta. Comunicação perfeita. Vamos tomar sol? – disse a moça que arrumava antes. Ah, claro!! Sol!

Um pátio imenso cheio de pessoas diferentes, fazendo coisas diferentes, falando coisas que não se entendiam e o sol – como é bom estar no paraíso!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Fé e a ciência do futebol

Fé e a ciência do futebol
Nasci menina. E em um sistema conservador, não era esperado ou  “permitido” minha participação em assuntos futebolísticos. Ao longo dos anos, sendo meu irmão mais próximo em idade do que minhas irmãs e meu pai mais próximo em discussões do intelecto, aproximei-me do assunto, que para muitas meninas da minha geração e cidade, um tabu.
Quando se deu o campeonato brasileiro de 99, vi minha paixão pelo Galo eclodir, na esperança geral da capital mineira de levar o título. O assunto não era mais tabu e aos poucos fui percebendo os lances, as genialidades, as imbecilidades e erros. Sim, erros. O futebol é feito prioritariamente de humanos. E erram por todos os lados. E mais humano do que isso, amam profundamente, apaixonadamente, loucamente por todos os lados
É claro que, sendo uma professora de língua estrangeira e entendendo a lingüística como ciência, tentei por diversas vezes racionalizar aquilo que me tomava do coração ao resto do corpo, aniquilando inclusive o pensamento. Há pouco tempo fui a uma palestra de neurociência, e o professor explicou com vasto conhecimento e detalhes que somos seres principalmente emocionais. Ele disse que o pensamento chega após a propagação das emoções, isto em termos vagos pois esse não é o assunto em questão.
O assunto em questão é o  Mauro Cézar Pereira no último Linha de Passe e São Victor.
Veja bem: eu sou mineira, atleticana. Como não ser devota de São Victor do Horto? Portanto na hora do pênalti, eu juntei minhas mãos, sofrendo em fé, cantei que Victor iria pegar. Eu tenho absoluta clareza de que contribui com aquele momento, mandando uma vibração atleticana para aquele que nos deu o maior livramento de todos, a ressurreição de que podemos ser campeões.
Pois bem! Ouvi com atenção os números e relatos do excelente jornalista no Linha de Passe na última segunda-feira, 14/09. Extrai de mim, toda minha paixão e dei voz ao meu lado científico e sereno. Compreendi o que foram os resultados de estudo aplicado como conseqüência de ações em prol de vencer uma partida, e até um campeonato. Tentei relevar as alegrias que o Pratto  me deu neste curto período de atuação, sem nem mesmo reclamar de adaptação ao futebol brasileiro, pensando que nos números, talvez ele poderia estar em pior fase que o Love.

Após considerar os pontos de fé versus os pontos científicos, fiquei com a premissa maior inicial: futebol é humano. A ciência não. A ciência tem que estar à disposição da humanidade. A humanidade é imprevisível. Agradeço o debate que me trouxe o jornalista, mas escolho o rumo da humanidade no futebol. Escolho porque eu acredito. E porque não pode ser baseado em números, porque não é frio é que o futebol é tão emocionante. Vamos ser humanos!