sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Salutem

E de tudo o que ficou foi a breve brisa que leva consigo a imortalidade. Esse sopro que nos bate a cara e desmonta nossa ilusão de que tudo vai dar certo. O que não foi o que aconteceu. Eu te conto o que aconteceu.
Na verdade, eu nos conto porque também tento entender o que me recompõe nesse retorno. Após tantos anos, revendo tantas memórias questiono minha sanidade. Desde a morte de Otávio, os acontecimentos vêm destruindo todos meus pilares e convicções. Um turbilhão sobrevoando minha vida que parece já não me pertencer.
Na primeira semana que estava de volta a Moraí, uma esperança de que tudo havia mudado tomou conta de mim. Quase me cegava essa ansiedade de ver o novo em qualquer lugar. As ruas estavam no mesmo lugar com lojas diferentes. Onde antes era a farmácia do seu  Alaor, que sempre dava balas no dia de São Cosme e Damião, hoje se transformara em uma loja de vestidos de marca. Onde era a oficina do Cléber com um cachorro preto imenso de vigia, agora se via um galpão alto improvisado como restaurante de comida estado-unidense. Minha cidade não existia mais. Eu tinha que me acostumar a desfazer daquilo que habitava somente minha mente.
Tentei tomar uma atitude de psicologia inversa, olhando apenas para o que nunca havia visto antes. Toda vez que me deparava com algo minimamente familiar, passava por cima com pensamentos inquietantemente contraditórios á minha personalidade. Comecei a ignorar os abusos verbais de minha mãe, que tentava insistentemente destruir com todas as minhas escolhas. Meu posicionamento era contrapô-la com frases positivas sobre o mesmo assunto. “-Você só está sozinha porque insistiu nessa loucura de não ter filhos.” “- Não estou sozinha, mamãe, estou com você.” Ela arregalava os olhos, procurava em sua mente uma tréplica não apenas para aquela resposta, mas também uma réplica para aquele posicionamento que destruía com o status quo que estruturava a relação como ela entendia existir. Sem perder mais do que um minuto, soltava “-Viver com uma velha não vai durar muito sua companhia.” Aos poucos e com uma imensa bagagem de paciência, fui tentando conduzir para uma convivência menos perturbadora.
Depois de conseguir um trabalho de diagramação em uma empresa de plotagem, conheci uma prima de uma amiga minha de infância, Carol, que me apresentou a Rosana que era amiga de uma prima minha que cresci junta. Incrível como o mundo é pequeno. Não me lembrava de nenhuma das duas, mas ambas traziam momentos vívidos em suas lembranças de momentos comigo do passado. Mas eu já superava o mais rápido possível essa conversa antes que tocassem em mim qualquer familiaridade.
Comecei a não retornar a bares  e restaurantes que havia ido antes, mudar os caminhos e as formas de ir ao trabalho, dar bons dias em línguas diversas, enfim, tudo o mais novo possível naquela velha cidade. Um certo anseio por qualquer novidade dentro da minha rotina começou a tornar uma obsessão. Internet, dicionários, revistas, tudo isso já não me satisfazia. As pessoas já não me faziam sentido. Parei de conversar. Comecei a conversar com os cachorros nas ruas. Ficava horas trocando olhares e uivos. Me cansei. Busquei os gatos, os ratos, as baratas... tudo naquela cidade já era velho e usado.
Minha chefe me pediu para conversar. Sentei em sua sala. Olhei para um lado, para outro. Três por quatro comum, uma parede com quadro, uma lisa, uma janela e porta, um armário. Uma mesa com papéis, um computador, uma caneta na mão e um discurso chato. Pedi demissão! Conversar nada. Ela queria me dar sermão de como eu estava me comportando. Falava para mim que estava preocupada porque eu não conversava com ninguém e vestia roupas que não fazia o menor sentido. Como se houvesse sentido uma calcinha dentro ou fora da calça. Aquilo já estava ficando velho mesmo. Um mês de trabalho no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, já deu.
Comecei a andar pela cidade. Não aquelas ruas que eu já conhecia. Procurava as ruas que eu nunca tinha ido antes. Pensava quantas pessoas haviam morrido naquele lugar. Onde teria fantasma naquele lugar assombrado. E talvez se eu me comunicasse com eles, a conversa poderia ser outra. Cansei. Sentei. Dormi.
Acordei em uma cama que não era minha. Vi minha mãe e minha irmã conversando com uma pessoa longe e me sentia pesada. Dormi novamente. Acordei com uma pessoa arrumando as coisas ao meu redor. Perguntei onde estava. A moça me respondeu que iria buscar o médico.  Ainda imaginei que se ela estava doente, era bom procurar um médico mesmo. Mas ainda não havia me respondido. Sentei na cama sentindo grogue. O homem de branco chegou,me chamou pelo nome e disse que tudo ia ficar bem, era só eu ficar calma. Eu achei bom. Naquele ritmo frenético do dia-a-dia, todo mundo apavorado, alguém me disse que tudo ia ficar bem. Sorri e ele sorriu de volta. Comunicação perfeita. Vamos tomar sol? – disse a moça que arrumava antes. Ah, claro!! Sol!

Um pátio imenso cheio de pessoas diferentes, fazendo coisas diferentes, falando coisas que não se entendiam e o sol – como é bom estar no paraíso!

Nenhum comentário:

Postar um comentário