E de tudo o que ficou foi a breve brisa que leva consigo a
imortalidade. Esse sopro que nos bate a cara e desmonta nossa ilusão de que
tudo vai dar certo. O que não foi o que aconteceu. Eu te conto o que aconteceu.
Na verdade, eu nos conto porque também tento entender o que
me recompõe nesse retorno. Após tantos anos, revendo tantas memórias questiono
minha sanidade. Desde a morte de Otávio, os acontecimentos vêm destruindo todos
meus pilares e convicções. Um turbilhão sobrevoando minha vida que parece já
não me pertencer.
Na primeira semana que estava de volta a Moraí, uma
esperança de que tudo havia mudado tomou conta de mim. Quase me cegava essa
ansiedade de ver o novo em qualquer lugar. As ruas estavam no mesmo lugar com
lojas diferentes. Onde antes era a farmácia do seu Alaor, que sempre dava balas no dia de São
Cosme e Damião, hoje se transformara em uma loja de vestidos de marca. Onde era
a oficina do Cléber com um cachorro preto imenso de vigia, agora se via um
galpão alto improvisado como restaurante de comida estado-unidense. Minha
cidade não existia mais. Eu tinha que me acostumar a desfazer daquilo que
habitava somente minha mente.
Tentei tomar uma atitude de psicologia inversa, olhando
apenas para o que nunca havia visto antes. Toda vez que me deparava com algo
minimamente familiar, passava por cima com pensamentos inquietantemente
contraditórios á minha personalidade. Comecei a ignorar os abusos verbais de
minha mãe, que tentava insistentemente destruir com todas as minhas escolhas.
Meu posicionamento era contrapô-la com frases positivas sobre o mesmo assunto.
“-Você só está sozinha porque insistiu nessa loucura de não ter filhos.” “- Não
estou sozinha, mamãe, estou com você.” Ela arregalava os olhos, procurava em
sua mente uma tréplica não apenas para aquela resposta, mas também uma réplica
para aquele posicionamento que destruía com o status quo que estruturava a relação como ela entendia existir. Sem
perder mais do que um minuto, soltava “-Viver com uma velha não vai durar muito
sua companhia.” Aos poucos e com uma imensa bagagem de paciência, fui tentando
conduzir para uma convivência menos perturbadora.
Depois de conseguir um trabalho de diagramação em uma
empresa de plotagem, conheci uma prima de uma amiga minha de infância, Carol,
que me apresentou a Rosana que era amiga de uma prima minha que cresci junta.
Incrível como o mundo é pequeno. Não me lembrava de nenhuma das duas, mas ambas
traziam momentos vívidos em suas lembranças de momentos comigo do passado. Mas
eu já superava o mais rápido possível essa conversa antes que tocassem em mim
qualquer familiaridade.
Comecei a não retornar a bares e restaurantes que havia ido antes, mudar os
caminhos e as formas de ir ao trabalho, dar bons dias em línguas diversas,
enfim, tudo o mais novo possível naquela velha cidade. Um certo anseio por
qualquer novidade dentro da minha rotina começou a tornar uma obsessão.
Internet, dicionários, revistas, tudo isso já não me satisfazia. As pessoas já
não me faziam sentido. Parei de conversar. Comecei a conversar com os cachorros
nas ruas. Ficava horas trocando olhares e uivos. Me cansei. Busquei os gatos,
os ratos, as baratas... tudo naquela cidade já era velho e usado.
Minha chefe me pediu para conversar. Sentei em sua sala.
Olhei para um lado, para outro. Três por quatro comum, uma parede com quadro,
uma lisa, uma janela e porta, um armário. Uma mesa com papéis, um computador,
uma caneta na mão e um discurso chato. Pedi demissão! Conversar nada. Ela
queria me dar sermão de como eu estava me comportando. Falava para mim que
estava preocupada porque eu não conversava com ninguém e vestia roupas que não
fazia o menor sentido. Como se houvesse sentido uma calcinha dentro ou fora da
calça. Aquilo já estava ficando velho mesmo. Um mês de trabalho no mesmo lugar,
fazendo a mesma coisa, já deu.
Comecei a andar pela cidade. Não aquelas ruas que eu já
conhecia. Procurava as ruas que eu nunca tinha ido antes. Pensava quantas
pessoas haviam morrido naquele lugar. Onde teria fantasma naquele lugar
assombrado. E talvez se eu me comunicasse com eles, a conversa poderia ser
outra. Cansei. Sentei. Dormi.
Acordei em uma cama que não era minha. Vi minha mãe e minha
irmã conversando com uma pessoa longe e me sentia pesada. Dormi novamente.
Acordei com uma pessoa arrumando as coisas ao meu redor. Perguntei onde estava.
A moça me respondeu que iria buscar o médico. Ainda imaginei que se ela estava doente, era
bom procurar um médico mesmo. Mas ainda não havia me respondido. Sentei na cama
sentindo grogue. O homem de branco chegou,me chamou pelo nome e disse que tudo
ia ficar bem, era só eu ficar calma. Eu achei bom. Naquele ritmo frenético do
dia-a-dia, todo mundo apavorado, alguém me disse que tudo ia ficar bem. Sorri e
ele sorriu de volta. Comunicação perfeita. Vamos tomar sol? – disse a moça que
arrumava antes. Ah, claro!! Sol!
Um pátio imenso cheio de pessoas diferentes, fazendo coisas
diferentes, falando coisas que não se entendiam e o sol – como é bom estar no
paraíso!
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