terça-feira, 15 de setembro de 2015

Folhas urbanas, memórias em papéis

Folhas urbanas, memórias em papéis

Era uma família de 14. A mãe viúva, com seus seis filhos. O pai viúvo, com seus seis filhos. E Emanuel Chagas Santiago. Nasceu dessa união de família em uma casa pequena, onde ainda dividia o quarto com suas irmãs para que elas pudessem tomar conta dele na única hora que a mãe dormia. Eram sete mulheres, cinco homens, o pai, a mãe e Emanuel. Franzino que nem ele só, todos achavam estranho sua orelha desproporcional, seu olhar arregalado e a boca sempre aberta. Cresceu no meio daquele tanto de gente, sempre os mais velhos implicando com ele: “Emanuel, quantos filhos tem sua mãe?” “Sete.”, respondia ele. “Emanuel, quantos filhos tem seu pai?” “Sete.”. E aí, vinha o deboche: “Então Emanuel, vocês são quatorze?”. “Não, somos treze.” E todos riam da criança que não conseguia se explicar.
Com o passar do tempo, sua timidez se aguçou de tal forma que, quando da morte do pai aos seus nove anos, Emanuel já não conversava com ninguém além de sua mãe. Dona Palma, professora formada, costureira de mão cheia, parteira e curandeira, entre outros atributos de boa dona de casa, teve de desenvolver uma fórmula para sustentar sozinha seus filhos e enteados. Educava as crianças dentro de casa para não ter mais gastos com escola, espichava até não poder mais a pensão de dois maridos falecidos, costurava vestidos para as moças e madames e distribuía favores pela vila afora fazendo partos e curando males em regiões aonde médicos e enfermeiros não chegavam. Sempre Emanuel na barra de sua saia. Emanuel não desgrudava de sua mãe, e todos achavam que ele tinha um problema sem solução. Achavam estranha sua face um tanto destorcida, sua forma de ignorar qualquer um que estivesse à sua volta, não respondia, não olhava nos olhos de ninguém, ficava a balançar a cabeça em diagonal de cima para baixo e a boca sempre aberta com o queixo caído e o beiço inferior avantajado.
Agitado, sem bulir com ninguém, chamava atenção por seus repentinos descontroles de gritos e tremores de mãos, quase se batendo no rosto. A mãe dizia: “Emanuel é meu anjo, não bula com ele, senão se verá comigo.” E assim foi crescendo grudado à mãe.
            Aos dezesseis anos, Emanuel perdeu a mãe. Todos ficaram preocupados com o futuro daquele jovem. Não por condições de moradia, pois ao ficar viúva pela segunda vez, o governo concedeu à sua mãe o direito à casa própria. Muito mais pela solidão em si. A primeira providência a ser tomada era como contar a Emanuel do ocorrido. Chamaram então o filho do prefeito, primo de Emanuel, que era médico para conversar com ele. Doutor Eloízio, acostumado com este tipo de tarefa, explicou várias vezes de inúmeras formas diferentes sobre o que era morte e o que havia acontecido com a mãe. Após todas as tentativas, já exaurido, o primo lhe perguntara: “Emanuel, você entendeu?” Emanuel lhe pisca em sinal afirmativo. Intrigado, o médico questiona: “Mas você não vai chorar? É a sua mãe.” Após muitos anos de silêncio, ele soltou uma frase: “Chorar agora, não, agora ela não sofre mais.” Assim como o médico, toda a cidade ficou comovida com o entendimento daquele jovem que ninguém esperava quase nada. Então todos começaram a cuidar de Emanuel. A cidade se revezava dando-lhe alimento e roupa. Ele comia bem, mas não usava as roupas que lhe eram dadas.
            Após um mês da morte da mãe, Emanuel, sem qualquer explicação, começou a varrer a cidade. Começava de manhã e só parava no final da cidade no começo da noite. Todos os dias. Pequenas paradas para comer quando alguém lhe dava comida, e seguia em frente. Produzia suas próprias roupas de jornal e cola. Uma roupa diferente por dia para varrer a cidade. Um dia a mulher do prefeito o viu parado sentado ao meio fio, lendo um catálogo telefônico. Ela começou a lhe trazer um livro por dia, e ele os devorava em poucas horas e voltava a varrer. Um mês, uma média de trinta livros lidos. Ele não aceitava livros repetidos. Às vezes, davam o mesmo livro com uma nova capa, não adiantava, ele não aceitava. Começava a ler, jogava o livro fora e voltava a varrer. A cidade desenvolveu tal cuidado com aquela entidade municipal que, quando viajavam para cidades maiores como Governador Valadares, Ipatinga, Caratinga ou até mesmo Belo Horizonte, todos traziam livros para Emanuel. Inúmeros livros, difíceis ou fáceis, Emanuel os adorava.

            Aos trinta e dois anos, Emanuel morreu dormindo. Sem necessidade de uma autópsia detalhada, a cidade entendeu a morte morrida de Emanuel. Acharam-no no terceiro dia de falecido, após arrombar sua porta por causa de um mal cheiro e um amontoado de folhas pela cidade. Aberta a porta de sua casa, havia uma imensa quantidade de livros, um colchão e Emanuel sobre ele. Ao retirar o corpo, levantaram o colchão e descobriram inúmeros contra-cheques debaixo do colchão. Emanuel nunca havia parado de receber o dinheiro da pensão de sua mãe, mas também nunca os havia descontado. Guardava-os. Ao ver aquela casa abandonada, todo aquele dinheiro e os livros, o prefeito só podia fazer uma única coisa: abrir uma biblioteca. E assim foi feita em Inhapim a biblioteca Emanuel Chagas Santiago. 

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