terça-feira, 15 de setembro de 2015

Pesos, medidas, valores

Pesos, medidas, valores

Ele se chamava Inácio. Era o farmacêutico do bairro. Sempre solícito e querido por todos. Nos seus 45 anos, morava na parte de cima de uma casa deixada por seus pais, deixando para o segundo andar sua farmácia. Vivia ali com o vazio e o silêncio. Uma casa grande de três quartos, cozinha larga, duas salas, dois banheiros... um desperdício, pensava ele. Ele que sonhou, quando mais novo, em se casar e ter vários filhos, via agora o tempo aniquilando seu sonho.
Claro que havia tido namoradas. A primeira ainda na adolescência namorou por 3 anos, noivou por 6 meses e, um dia, sem uma explicação clara, Mônica o deixou. Ainda hoje lembrava seu jeito doce, seus olhos verdes e mãos delicadas. Na faculdade, namorou Luciana. Alta, magra, dona de um sorriso largo e risada calorosa. Por 5 meses, foi feliz. Ao final, ela não sabia se explicar, chorava muito e pedia por seu perdão mas não podia mais ficar com ele. E finalmente resolveu namorar a amiga de uma prima, que há anos insistia nessa tecla. Depois de 1 ano, Rosária sumiu. Não atendia telefone, quando ele ia a sua casa, ela dava um jeito de sair e falava que ligava depois, mas nada. Sem explicação. Ao longo dos anos, eventuais encontros de sexo casual e permanentes idas ao prostíbulo do outro lado da cidade o mantiveram com uma certa paciência.
Eis que naquela semana, uma nova família se mudou para rua do lado. Os pais idosos e a moça. Já não era mocinha. Com 40 anos, Isaura só sabia de cuidar dos pais. Baixinha, com corpo arredondado, os olhos manchados com uma queimadura de infância e alguns problemas de fala.
No meio da madrugada, Seu Camilo, pai de Isaura, teve uma súbita subida de pressão. Indicaram para a moça que chamassem Inácio. E assim se conheceram. No escuro, Inácio não percebeu a figura de Isaura, mas sua dedicação, cuidado e delicadeza o chamaram a atenção. No dia seguinte, ele conseguiu a ver com mais detalhes. A repugnância tomou o seu ser mais do que sua consciência de culpa cristã lhe permitia. Mas seu pavor da solidão o corroia mais. No final da consulta, tomou coragem e a convidou para jantar. Ela, sem saber o que fazer, disse sim.
Saíram para jantar em um pequeno restaurante italiano, quase caseiro, perto dalí. Isaura tinha conhecimento de todo e qualquer assunto. Não de maneira presunçosa, mas desenvolvia bem as discussões, buscando mais e mais o conhecimento que lhe faltava. Alegre e otimista, trazia sempre a doçura de que tudo era possível desde que trabalhássemos para aquilo. Mas era feia! Ele olhava para ela e via como sua fisionomia não trazia um traço agradável.
Ao final, ele a levou até a porta de casa. Ela sorrindo, claramente receptiva e esperançosa por um momento de afeto. Para ele, aquele seria o momento que, normalmente, ele beijaria a moça, não teve coragem. Deu-lhe a mão e um beijo no rosto.
Foi pra casa. Deitou na cama. Revirava-se em agonia entre a solidão e Isaura. Sua cabeça se debatia entre uma culpa cristã de julgamento da aparência de Isaura e a adequação social aos padrões que seus amigos iriam pensar; a ausência total de atração sexual e a esperança de preencher os espaços naquele buraco sem sol que havia virado sua casa.
Alguns dias se passaram, e ele não procurou Isaura.
Na tarde de uma quarta-feira, uma notícia lhe deu um susto. Seu Salomão, vizinho de frente e amigo, havia morrido há uma semana e ninguém sabia. Ele havia percebido a ausência do amigo, mas não deu grande importância por achar que ele poderia estar viajando ou muito ocupado. Uma vizinha, querendo reclamar do cheiro que infestava a casa dela proveniente do apartamento ao lado foi quem reclamou ao síndico. Os bombeiros vieram, arrombaram a porta por não haver sinal de vida.
Seu Salomão era muito querido por todos no bairro e todos compareceram ao seu velório. Inclusive Isaura e seus pais.
No caminhar triste do sepultamento, a ideia de seu amigo deitado no chão da sala apodrecendo sozinho o transtornava seu ser. Mais do que a perda de seu amigo, o medo carcomia suas vísceras e aplacavam sua alma. Estava ali o símbolo de tudo que mais o apavorava. Ele olhou pra trás e a viu. Aquele ser desconjuntado e feio poderia ser a solução de seus problemas.
Ao final do sepultamento, foi atrás de Isaura convidar para um café. Deixaram os pais dela em casa e, mais uma vez, desfrutaram de uma tarde de agradável companhia com conversas animadas e tímidas tentativas de toques entre mãos. Inácio imaginava que se ele fosse aos poucos se acostumaria e encontraria prazer em se entregar àquela mulher. E deu certo. Em certo momento, a coragem lhe encheu e veio um beijo receoso e trêmulo, mas para seu espanto, nada ruim. Abraçou-a com alívio e esperança. Mais abraços e mais beijos depois, e seu corpo estava tomado por um desejo animal em lhe arrancar as roupas e possui seu corpo com a boca, língua e pênis. Armado de tesão como há muitos anos não sentia, quis a levar para casa com urgência.
Isaura o avisou de sua pouca experiência, já que apenas tinha transado com apenas um homem. Ela explicou para ele que seu primeiro relacionamento durou 1 ano e três meses. Ao perder sua virgindade com muita dor e incômodo, seu namorado terminou alegando não conseguir suprir as necessidades e superar aquela dificuldade. Desde então, Isaura baniu esse desejo por achar que não valia a pena a dor e sofrimento pela qual ela havia passado.
Inácio a acalmou e se sentiu uma tranqüilidade de encontrar aquela mulher em sua vida. Para ele, era como a vida houvesse os preparado para aquele momento. Ele acabou convencendo-a a subir para sua casa.
Ele abriu a porta da sala. Um vento entrou com raios de sol. Aquele ar de abandono parecia dissolver aos passos de Isaura na madeira que rangia. Eles caminharam abraçados até o quarto, sorrindo e trocando carícias.
Chegando ao quarto, ela pediu para deixar a penumbra por ainda se sentir tímida. Ele obedeceu. Tirou a blusa dela e chupou o seio até o gemido revelar a entrega de seu corpo. Tiraram as roupas e se beijaram longamente. Ele se encaixou entre as pernas dela. Ela sentia o peso do seu corpo gingando sob ela. E, de repente, ela perguntou:
-Você não vai entrar?
-Já estou...
-Não sinto nada.
-Como assim?
Ele levantou, sentou à beira da cama e se deu conta da completa falta de explicação das outras mulheres. Olhou para seu pênis. Ereto, media dois dedos apenas de suas mãos. Colocou as mãos em sua cabeça desesperado pensando que nunca seria homem algum para qualquer mulher. Debulhou em lágrimas, soluçando e bradando sua dor da castração.
Isaura o abraçou e o desejou como a nenhum outro homem ela havia desejado ou jamais desejaria daí pra frente. E eles se olharam e ela disse:
-Agora você foi feito pra mim! Agora eu sei que você é meu  e de mais ninguém.
ades vizinhas e havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.  Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais, políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se rendiam a seu talento.

Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro, cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.

- Vire de costas, minha Princesa...

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