Pesos, medidas, valores
Ele se chamava Inácio. Era o farmacêutico do bairro. Sempre
solícito e querido por todos. Nos seus 45 anos, morava na parte de cima de uma
casa deixada por seus pais, deixando para o segundo andar sua farmácia. Vivia
ali com o vazio e o silêncio. Uma casa grande de três quartos, cozinha larga,
duas salas, dois banheiros... um desperdício, pensava ele. Ele que sonhou,
quando mais novo, em se casar e ter vários filhos, via agora o tempo
aniquilando seu sonho.
Claro que havia tido namoradas. A primeira ainda na
adolescência namorou por 3 anos, noivou por 6 meses e, um dia, sem uma
explicação clara, Mônica o deixou. Ainda hoje lembrava seu jeito doce, seus
olhos verdes e mãos delicadas. Na faculdade, namorou Luciana. Alta, magra, dona
de um sorriso largo e risada calorosa. Por 5 meses, foi feliz. Ao final, ela
não sabia se explicar, chorava muito e pedia por seu perdão mas não podia mais
ficar com ele. E finalmente resolveu namorar a amiga de uma prima, que há anos
insistia nessa tecla. Depois de 1 ano, Rosária sumiu. Não atendia telefone,
quando ele ia a sua casa, ela dava um jeito de sair e falava que ligava depois,
mas nada. Sem explicação. Ao longo dos anos, eventuais encontros de sexo casual
e permanentes idas ao prostíbulo do outro lado da cidade o mantiveram com uma
certa paciência.
Eis que naquela semana, uma nova família se mudou para rua
do lado. Os pais idosos e a moça. Já não era mocinha. Com 40 anos, Isaura só
sabia de cuidar dos pais. Baixinha, com corpo arredondado, os olhos manchados
com uma queimadura de infância e alguns problemas de fala.
No meio da madrugada, Seu Camilo, pai de Isaura, teve uma
súbita subida de pressão. Indicaram para a moça que chamassem Inácio. E assim
se conheceram. No escuro, Inácio não percebeu a figura de Isaura, mas sua dedicação,
cuidado e delicadeza o chamaram a atenção. No dia seguinte, ele conseguiu a ver
com mais detalhes. A repugnância tomou o seu ser mais do que sua consciência de
culpa cristã lhe permitia. Mas seu pavor da solidão o corroia mais. No final da
consulta, tomou coragem e a convidou para jantar. Ela, sem saber o que fazer,
disse sim.
Saíram para jantar em um pequeno restaurante italiano, quase
caseiro, perto dalí. Isaura tinha conhecimento de todo e qualquer assunto. Não
de maneira presunçosa, mas desenvolvia bem as discussões, buscando mais e mais
o conhecimento que lhe faltava. Alegre e otimista, trazia sempre a doçura de
que tudo era possível desde que trabalhássemos para aquilo. Mas era feia! Ele
olhava para ela e via como sua fisionomia não trazia um traço agradável.
Ao final, ele a levou até a porta de casa. Ela sorrindo,
claramente receptiva e esperançosa por um momento de afeto. Para ele, aquele
seria o momento que, normalmente, ele beijaria a moça, não teve coragem.
Deu-lhe a mão e um beijo no rosto.
Foi pra casa. Deitou na cama. Revirava-se em agonia entre a
solidão e Isaura. Sua cabeça se debatia entre uma culpa cristã de julgamento da
aparência de Isaura e a adequação social aos padrões que seus amigos iriam
pensar; a ausência total de atração sexual e a esperança de preencher os
espaços naquele buraco sem sol que havia virado sua casa.
Alguns dias se passaram, e ele não procurou Isaura.
Na tarde de uma quarta-feira, uma notícia lhe deu um susto.
Seu Salomão, vizinho de frente e amigo, havia morrido há uma semana e ninguém
sabia. Ele havia percebido a ausência do amigo, mas não deu grande importância
por achar que ele poderia estar viajando ou muito ocupado. Uma vizinha,
querendo reclamar do cheiro que infestava a casa dela proveniente do apartamento
ao lado foi quem reclamou ao síndico. Os bombeiros vieram, arrombaram a porta
por não haver sinal de vida.
Seu Salomão era muito querido por todos no bairro e todos
compareceram ao seu velório. Inclusive Isaura e seus pais.
No caminhar triste do sepultamento, a ideia de seu amigo
deitado no chão da sala apodrecendo sozinho o transtornava seu ser. Mais do que
a perda de seu amigo, o medo carcomia suas vísceras e aplacavam sua alma.
Estava ali o símbolo de tudo que mais o apavorava. Ele olhou pra trás e a viu.
Aquele ser desconjuntado e feio poderia ser a solução de seus problemas.
Ao final do sepultamento, foi atrás de Isaura convidar para
um café. Deixaram os pais dela em casa e, mais uma vez, desfrutaram de uma
tarde de agradável companhia com conversas animadas e tímidas tentativas de
toques entre mãos. Inácio imaginava que se ele fosse aos poucos se acostumaria
e encontraria prazer em se entregar àquela mulher. E deu certo. Em certo
momento, a coragem lhe encheu e veio um beijo receoso e trêmulo, mas para seu
espanto, nada ruim. Abraçou-a com alívio e esperança. Mais abraços e mais
beijos depois, e seu corpo estava tomado por um desejo animal em lhe arrancar
as roupas e possui seu corpo com a boca, língua e pênis. Armado de tesão como
há muitos anos não sentia, quis a levar para casa com urgência.
Isaura o avisou de sua pouca experiência, já que apenas
tinha transado com apenas um homem. Ela explicou para ele que seu primeiro
relacionamento durou 1 ano e três meses. Ao perder sua virgindade com muita dor
e incômodo, seu namorado terminou alegando não conseguir suprir as necessidades
e superar aquela dificuldade. Desde então, Isaura baniu esse desejo por achar
que não valia a pena a dor e sofrimento pela qual ela havia passado.
Inácio a acalmou e se sentiu uma tranqüilidade de encontrar
aquela mulher em sua vida. Para ele, era como a vida houvesse os preparado para
aquele momento. Ele acabou convencendo-a a subir para sua casa.
Ele abriu a porta da sala. Um vento entrou com raios de sol.
Aquele ar de abandono parecia dissolver aos passos de Isaura na madeira que
rangia. Eles caminharam abraçados até o quarto, sorrindo e trocando carícias.
Chegando ao quarto, ela pediu para deixar a penumbra por
ainda se sentir tímida. Ele obedeceu. Tirou a blusa dela e chupou o seio até o
gemido revelar a entrega de seu corpo. Tiraram as roupas e se beijaram
longamente. Ele se encaixou entre as pernas dela. Ela sentia o peso do seu
corpo gingando sob ela. E, de repente, ela perguntou:
-Você não vai entrar?
-Já estou...
-Não sinto nada.
-Como assim?
Ele levantou, sentou à beira da cama e se deu conta da
completa falta de explicação das outras mulheres. Olhou para seu pênis. Ereto,
media dois dedos apenas de suas mãos. Colocou as mãos em sua cabeça desesperado
pensando que nunca seria homem algum para qualquer mulher. Debulhou em
lágrimas, soluçando e bradando sua dor da castração.
Isaura o abraçou e o desejou como a nenhum outro homem ela
havia desejado ou jamais desejaria daí pra frente. E eles se olharam e ela
disse:
-Agora você foi feito pra mim! Agora eu sei que você é
meu e de mais ninguém.
ades vizinhas e
havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O
trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.
Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais,
políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se
rendiam a seu talento.
Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro,
cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a
expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.
- Vire de costas, minha Princesa...
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