Princesa
Era uma vez uma princesa. Só que ela não era princesa, mas
ela não sabia disso. Ela achava que em algum momento na vida, alguém iria
descobrir o tanto que ela era especial de alguma forma.
Ela era filha do meio de sete irmãos. A mais velha, Diana,
era a mais trabalhadeira, depois vinha Eliana, uma morena maravilhosa de olhos
verdes e corpo escultural, na sequência Carlos, estudante de medicina exemplar.
Com um ano a menos que ela, tinha Valquíria, que enchia a casa de amigos,
sempre em festas e badalo. Lírio desafiava todos os limites esportivos e sempre
saía campeão, e finalmente Cora com habilidades diversas do bordado, cozinha,
escrita, atuação entre outros.
Ela amava toda aquela bagunça. Os irmãos sempre com
novidades e grandes planos não deixavam quieta a casa de seus pais orgulhosos.
Ela se esforçava na escola, entre seus colegas, em todas as atividades que a
cercavam. Ela sempre saía junto com a maioria, no meio do miolo. Chegava em casa
um tanto desanimada e decepcionada e não contava nada a ninguém. Continuava a
ouvir os êxitos de seus irmãos com sincera admiração. Nesses momentos, sentia
falta de o pai a sentar no colo para um consolo. Ele sempre se esquivava com
qualquer motivo inexplicável.
Um dia, ela acordou cedo, desceu para sala e percebeu que
sua mãe conversava com uma vizinha amiga:
- ...pois é, Iara, todos meus filhos, como você bem disse,
são um sucesso em tudo que fazem, menos ela – falando baixinho como se para não
espalhar- não sei o que deu errado ali. Demos a mesma educação, mesmo
carinho... tudo igual, e ela parece não saber o que fazer da própria vida. Parece
preguiçosa ou sei lá.... É tão diferente dos outros...
A sensação de desapontamento que ela sentia que causara na
mãe a transtornou de tal forma que ela correu para cama aos prantos em total
desespero. Passou o dia na cama, sem coragem de olhar na cara de quem quer que
seja. Ficou lá sem comer, sem beber água... e ninguém foi chamá-la. Acabou por
dormir de cansaço do choro.
No outro dia, ao sair para a escola, decidiu que algo iria
mudar. Já com 14 anos, poderia transformar aquela realidade. E ela mudaria sem
importar o que fosse necessário. Qualquer coisa que a fizesse sair daquele
ostracismo valeria a pena. Não era mais aceitável que ela fosse tão
decepcionante para os pais e para si mesmo.
Naquele dia, ela não acertou nenhuma das perguntas que os
professores fizeram na sala, ninguém achou graça de nenhuma das piadas ou dos
comentários inteligentes que ela fazia, ela não foi chamada para participar de
nenhum esporte, nada. Completamente desanimada, ela foi para o final da quadra
e sentou pensando o que poderia fazer.
De longe, ela viu Ramon vindo em direção a ela. O que ele
queria, ela não poderia saber. Ele nunca havia sequer olhado para ela. Não que
ele tivesse qualquer coisa de especial, era só mais um garoto da escola, sem a
menor importância. Ele sentou do lado dela. E eles começaram uma conversa
trivial, coisas da escola sem qualquer importância. Ele perguntava, ela
respondia até que em certo momento o cabelo dela caiu sobre os olhos e ele tirou passando a
mão por sua testa. Ela sentiu um tremor por dentro. Eles se beijaram longamente, ele tirou a blusa
dela, a acariciou carinhosamente. Enquanto ele beijava seu pescoço, ela pediu:
- Me chame de princesa!
E ele atendeu sussurrando em seu ouvido:
- Minha princesa!
Naquele momento, ela se sentiu a mais especial de todas as
mulheres. A sensação era tão lisonjeira que ela não sentia dor, somente o
fervor lhe cobria do meio das coxas até seu rosto. Então com muito cuidado ele lhe tirou a
virgindade.
Eles se levantaram, colocaram as roupas e foram para casa.
Ela chegou em casa ainda zonza e mole de prazer. Sorrindo,
respondeu à mãe a pergunta corriqueira “como foi seu dia?”:
- Tudo bem.
Subiu para seu quarto e desfrutou daquela sensação por toda
noite. No outro dia, não podia esperar a voltar para escola. Chegando lá,
encontrou Ramon. Eles conversaram um pouco, mas ela nada sentiu por ele.
Percebeu que o que aconteceu não fazia conexão com nenhum sentimento mais
profundo.
Uma aula antes do intervalo, ela se pegou olhando entre as
pernas de alguns garotos e se masturbando. Wander, um garoto com quem ela fazia
muitos trabalhos de escola, percebeu seus olhares. Olhou para ela, sorriu
sorrateiramente, ela devolveu o sorriso e os dois fugiram para o banheiro.
Wander era mais velho. Tinha entrado na turma dela por ter
sido reprovado dois anos seguidos. E ela percebeu que com ele, ela podia
aprender tudo sobre o assunto. A partir daí, eles passaram a se encontrar
escondidos antes e depois da aula e nos intervalos. Wander indicava didaticamente todos os caminhos para
o orgasmo. Ele ensinava a usar a boca, o dedo, os grandes lábios, até mesmo os
gemidos e frases provocativas. A exploração sexual de seu corpo gerava êxtase e
satisfação plena. Quanto mais ela explorava, mais se satisfazia, e mais queria
explorar. Esse ciclo vicioso e viciante os colocaram em perigo por sempre
estarem em local público. Todos os locais da escola eram possíveis. Por várias
vezes, quase foram pegos. Mas sempre dava um jeito de se safarem.
Até que um dia, ao fechar da escola, dentro da secretaria,
embaixo do balcão de atendimento, a faxineira os achou. Imediatamente, o
diretor foi chamado e consequentemente os pais de ambos.
Ninguém acreditava que ela fazia parte daquilo. Nunca
aparentou ser uma menina fora do eixo. Bem comportada, dentro das médias,
quieta e quase imperceptível entre os outros alunos, ela nunca havia
participado de nenhuma atividade ilegal ou proibida. Mas isto era inconcebível.
Foi expulsa.
Ao chegar em casa, os irmãos calados rejeitaram com asco
aquela invasora familiar. A mãe foi para o quarto a chorar se culpando sem
saber onde estava a culpa. O pai a chamou para a cozinha e disse:
- Não posso te aceitar nessa família. Não após tamanha
vergonha, esta casa não pode mais te abrigar. Você não é mais minha filha. Vai,
pega suas coisas e some da minha frente.
Calmamente, ela pegou suas roupas, um dinheiro guardado no
porta-jóias e saiu sem despedir de ninguém.
Em frente a escola, havia uma senhora mal falada alugando um quarto. E
lá ela foi. Dona Jurema era uma senhora gorda que vivia de uma pensão de seu
marido morto de causas enigmáticas. Ela explicou a dona Jurema todo o acontecido
e disse que não sabia fazer mais nada além de sexo. E era a única coisa em que
ela era realmente boa. Dona Jurema admirada com sua honestidade permitiu o
trabalho com trinta por cento para a casa. Soltaram o boato, já que não podia
levantar uma placa.
No final da semana, a fama chegava a cidades vizinhas e
havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O
trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.
Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais,
políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se
rendiam a seu talento.
Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro,
cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a
expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.
- Vire de costas, minha Princesa...
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