terça-feira, 15 de setembro de 2015

Além do viver

Além do viver

Eu olhava para aquelas linhas atônita como se elas tivessem aparecido de uma hora para outra. O ressecado, a s irregularidades, manchas estavam tão destoante do sentimento juvenil que me invadia naquela manhã. O sol ainda quebrando o céu e a chaleira apitando me tiraram daquele devaneio. Impressionante a transposição mental no tempo.
Ajeitei o chinelo no pé, ouvi o jornal batendo na porta do desleixo do entregador, passei o café, fui até a porta, abri. Um vento inesperado invadiu meu rosto e minha espinha. Era hoje. Fechei os olhos e sonhei por um minuto. Quanto tempo levará até o final do dia? Peguei o jornal, voltei para cozinha. Pus a mesa. Ele veio. Sentou. Pôs o café. Bebeu. Aquele silêncio gritante de infelicidade que nem mais dá bom dia pela banalidade dos anos.
- Você vem almoçar?
-Não sei. Tenho uma reunião no fim da manhã. Acho que não. Te aviso.
-Avisa quando?
-Quando der. Tchau.
Não podia ficar mais nos pensamentos. A vida deveria continuar normalmente até segunda ordem. Limpar cozinha. Atender o telefone.
- Alô... Oi, minha filha... Bom dia!... Ele já saiu.... Sei... Hum-hum... Claro que pode. Avisa sua irmã que você vem, quem sabe ela também não anima. O seu irmão já vai almoçar aqui mesmo...Tudo bem... Vou fazer aquela torta de frango que você adora. ... Tudo bem. ... Deus te abençoe. ... Beijos e até mais tarde.
Coisa pra fazer era o que não me faltava. Por outro lado, vontade não era lá aquelas coisas. Mas tinha que me manter ocupada para não enlouquecer. Limpar a casa, arrumar cozinha, descongelar o frango.
Pontualmente às oito, Marisa vem tomar nosso café.
-Trouxe pão fresco. Bom dia! Tudo bem?
-Tudo bem. Por que pergunta?
-Por que é o que as pessoas educadas fazem, Neusa. É tão absurdo esse abuso que fazem contigo que já perdeu a noção de civilidade?
-Ah, Marisa... não sei porque você insiste nisso...
-Porque gosto de você. Me conta... É hoje?
-Sim... – finalmente abri meu sorriso que havia reprimido para não transparecer minha felicidade desde a semana anterior. Naquela quarta-feira, não acreditei quando, no meio do supermercado, eu vi aquela imagem. De todas as pessoas do meu passado, tinha que encontrar justamente com Lígia. Quase trinta anos sem nos ver e em uma trivialidade de compras para casa, ela volta para minha vida. Aproximei com cuidado, com um plano B... se ela não me reconhecer, finjo procurar por tomates... O coração acelerava, a mão tremia e suava, um gelado tomava conta do meu estômago e espalhava por todo meu ser... até que ela me olhou. Tudo parou. Tudo voltou ao normal. Um normal que não sentia há mais de trinta anos. Ela sorriu. Eu sorri. Esquecemos as compras e fomos tomar um café. No dia seguinte, almoço.
Conversávamos como se o tempo não tivesse nos separado. Eu contava das minhas bobagens de dona de casa, mãe, esposa, pequenas viagens para praia em que mais trabalhava do que me divertia. Ríamos com estórias de meus filhos. Maravilhava-me todos os casos de suas viagens pelo mundo como restauradora. Ela me contava com tantos detalhes que eu conseguia enxergar as obras que nunca vi. A tarde passou como vento. Tinha que voltar para casa. Cícero ia chegar a qualquer momento.
-Eu te levo.
-Tudo bem.
Fomos ainda rindo com paz no coração.
-É aqui. Depois que as crianças casaram, vendemos a casa, e ficamos com esse apartamento. Para nós dois, tá bom.
-Pensei muito em você em Veneza. Ainda me recordo o tanto que você gostava da música do Aznavour.
-Que c’est triste Venise... É triste mesmo?
-Quando não se ama mais? Não sei... sempre amei. Não estive lá sozinha.
-Não?
-Já não disse que pensei muito em você em Veneza...
Minha boca secou. Meu coração parou. Eu não piscava. Eu não mexia. Mas ela se mexeu. Encaixou-me um beijo em perfeita sintonia de minha paixão. Quente, molhado, longo voltando a fazer pulsar os sentimentos mais adormecidos de minha alma. Seus braços me envolviam como uma nuvem flutuante. Os lábios saíram e os olhares entraram em cena aos prantos porque o amor havia nos encontrado. Um amor que nem uma, nem a outra havia pensado em viver. No susto, abri a porta e saí correndo para dentro de casa como uma criança que havia feito coisa errada. Em casa, entrei correndo no banheiro, sentei no chão e chorei. Chorei por ter descoberto o tanto que eu era infeliz.
 -Neusa, Neeeuuusaa... acorda pra me contar...
-Ah, Marisa... nem sei o que te dizer... É tudo tão novo e tão antigo que me embolo toda.
-Calma! O que você precisa manter em mente é o que você quer para sua vida daqui pra frente. Acreditar que você pode e deve ser feliz.  Já fez tudo que podia para seus filhos, seu marido. E agora precisa ser feliz por você. Você tem esse amor reprimido por tanto tempo, todos os desejos que qualquer mulher tem o direito de ter descartado por uma convenção tão velha quanto eu ou você... Absurdo!
-Mas, Marisa... e meus filhos? Eu vou perder o amor deles, o respeito... Eles não entenderão.
-Ninguém conhece o amor aos 10 anos e o reconhece aos 60. É amor! Eles vão entender. Vai ser difícil, eles vão resistir, mas no final eles vão aceitar... Você vai ver... Como vai ser? Como vocês combinaram?
-Marisa... já são  9:30. Preciso fazer almoço e me preparar. Daqui a pouco, Solange chega. Ela vem pra me ajudar e vou começar contando a ela.
O fechar da porta nunca me bateu tão cheia de solidão como dessa vez.
A solidão ultrapassava ausência. Transformava-se em um buraco negro que se abria debaixo dos meus pés. O que dizer? Como traduzir tudo que se passava por mim por tantos anos? Como explicar a responsabilidade de filha, mulher, esposa e mãe? Será que eu mesma entendia?
Cozinhar o frango, fazer a massa da torta... Ocupar-me era a saída mais fácil.
-Oi, mãe. A porta estava destrancada. Você sabia disso?
-Marisa acabou de sair, minha filha.
-Mas não é bom, mãe. Não é seguro. O que você quer que eu faça? Mãe... você está tremendo? O que houve? Você está chorando? O que foi?
-Nada...
-Como nada? Óbvio que é alguma coisa... Senta um pouco, fala comigo. Vou pegar uma água.
Eu olhava Solange. Via seus olhos grandes e curiosos como quando era criança. Nada saía. Nenhuma palavra.  Sua boca mexia, mas eu não escutava nada.  
-Só estou cansada, querida... Comece a fazer a massa. A receita está do lado do filtro. Eu vou deitar um pouco.
No caminho para o quarto, meu estômago contorcia de dores, e o sangue corria gelado pelas veias. A dor de uma faca quente atravessava meu peito e cruzava meu braço, minha vista começava a ficar escurecida...
-Mãe? Mãe?
Minha cabeça bateu no chão e eu já não mexia.
-Alô? Uma ambulância na rua Tolerância, número 624, apartamento 102, por favor? Urgente... Minha mãe... não sei  o que ela tem... caiu... inconsciente...

Abri meus olhos e via uma árvore em um campo verde. Sonho bom. Flutuante. Do lado, estava Solange, Iara e Junior chorando copiosamente. Quis ir até eles. Não conseguia. Continuava a flutuar. Cícero também estava lá. Rígido e seco. Mas abalado. E ao longe, senti a perda da vida ao ver Lígia. Agora entendi o que era não viver.

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