O antes, o durante e o depois: placas tectônicas!
Não há motivo
para abrir mais um debate amoroso ou de relacionamentos. Mas há um motivo para
abrir meu coração: a passagem de uma época. Quando pensamos na possibilidade de
findar com sonhos e enfrentar a vida, enxergá-la como ela é, independente de
Nelson Rodrigues, a pior parte é ver desfalecer a frase “viveram felizes para
sempre”, porque nessa vida as quatro palavras mágicas são de pura fantasia e
ilusão. Ta, podemos viver. Sim, acredito em felicidade. O “para
sempre” é um incômodo. Quando lemos estas duas palavras, estamos indo contra
várias realidades: a norte, o fim, a mudança de rumos, a mudança de ideias,
personalidades, ambições, caráter entre outras coisinhas que esquecemos ao nos
deparar com a palavra FELIZ! Com sua sonoridade tangível e morfologia
esteticamente bem pensada, não pensamos em mais nada.
No
começo, tudo é muito detalhes. Como pode uma única coisa parecer plural? Os
toques da mão, a saliva doce, a passagem da mão no rosto, envolvimento da
cintura, a palavra certa na hora certa, justamente aquilo que eu queria
ouvir... Como ele pode perceber? Como ele descobriu que eu amo isso? Porque ele
disse aquilo? Hum, que pegada diferente... olho no olho... respiração
ofegante... meu nome... o seu... Nós.
Tudo junto é o tudo. Será que o
plural é o que torna o tudo? Não importa: o que importa é o aqui e o
agora. O que importa é ser feliz. Já
passei pelos outros seis anões para saber que o príncipe não vem e o que eu
quero está ali no meu banheiro escovando os dentes, tentando não fazer barulhos
desconcertantes. Até fecha a porta e abaixa o assento da privada. Mais uma
saída, mais algumas descobertas. Só nós dois. Todos os gostos, vontades e
sonhos são compatíveis àquilo que eu pensei viver.
O
pacote. Uma prima minha já namorou um cara que, olhando de fora era um homem
ideal, quando ainda se acredita nisso. Ele era lindo, estável, não
exageradamente sensível, forte, íntegro, seguro de si e do que queria, cordial,
compreensivo, libertador, moderadamente vaidoso, profundo sem ser chato, às
vezes chato sem ser irritante, brincalhão sem ser idiota, bom enfim: O PACOTE.
Ninguém entendeu quando ela quis se separar dele. As pessoas se perguntavam,
será que ele bebe, será que ela é lésbica, será que ele bate, será que ela não
quer ser feliz? Então eu fui até ela, e perguntei. Porque nessa hora ninguém te
pergunta, todos te dão a resposta para sua vida. E ela me disse: “Natália, como
se vive com alguém perfeito sem a compatibilidade dessa perfeição? Eu não vivia,
eu me cobrava.” Pois bem, aí está. Até os perfeitos, em sua perfeição, tem seus
defeitos. E chega a hora de descobrir a falha, aquilo que pode fazer você mudar
de opinião sobre todo o relacionamento. Quais as condições para sobreviver a
este relacionamento, ou o desafio desse homem? Às vezes, é a briga pelo
controle remoto, política, números de filhos, o passado, o papel higiênico
saindo por baixo ou por cima, futebol (isso pode acontecer, acreditem em mim),
música, filme, cigarros, ou outros vícios... Tudo isso pode ser. Mas a gente suporta no durante. O durante é
fase que tudo acontece para perceber o outro. No durante, o sexo é o
desenvolvimento que une o porque você está ali, a promessa, ao se você quer continuar ali, o
relacionamento em si. Até
porque, entenda, as preliminares para as mulheres são tão importantes quanto o
aconchego final, e ambos, na maioria dos casos, proporcionam um real bom
durante. O durante é quando você busca a ligação para vocês estarem juntos. É
praticamente a liga para o bolo dar certo. Porque agora é isso que você quer:
que dê certo. Nesta fase, é quando você pensa que não vai precisar passar por
isso mais, nem acordar no meio da noite com medo de ficar sozinha o resto da
sua vida porque pode dar certo. Enfrentar as vicissitudes da vida fica
tranqüilo nessa época. Natais, aniversários, festividades em famílias, tudo vai
ser mais fácil com seu cúmplice. Cumplicidade é o que queremos. Deveríamos fazer uma campanha em prol da
cumplicidade. Devemos também ter muito cuidado nessa fase, e ouvirmos o que ele
quer, tentar descobrir o que o completa. Porque a quantidade de farinha pode
fazer o bolo desandar. E desanda mesmo.
Seja na forma que for, o depois
quase nunca é como esperamos. Mas há uma forma pior do que as outras. Isso
acontece quando você não foi bem no durante ou no antes, não se sabe muito bem
quando, onde, como ou o que. Só se sabe
que ele não te quer mais. Abandonada, você procura andar com sua vida para
frente, e ela parece estancada. O que andava tão bem era apenas a sua
impressão. Eu, pelo menos, passo horas da minha vida procurando um caminho, uma
forma de voltar àqueles momentos, mais um minuto feliz, retomar o caminho que
estava tão bem, tentando achar uma resposta. E aí, você descobre que tudo era
muita lava e pouco concreto, e agora são cinzas. O que você não percebeu foram
as placas tectônicas que te afastavam dele. Porque as placas se movem tão
lentamente que você não percebe sob seus pés. E por mais que você queira se
aproximar como amiga, enfrentar o medo do antes e do durante, as placas
tectônicas continuam te afastando dele. Aquele lugar que foi tão de nós dois
nos afasta ainda mais porque você percebe que ele não está interessado em você
mais e acabou. Não existe mais o durante ou o antes porque acabou, e a única
coisa que sobrou foi você e seu coração quebrado em estilhaços. Mexicano.
Essa fase é tão terrível que tem até nacionalidade. E tem
também hino próprio: o fado. Até porque você está tão sozinho, que você não
sabe mais o que fazer com sua mente e tudo o que passa por ela. Enfrentar o
futuro é aterrorizante por causa de algumas palavras como: sozinho e novo
risco. Olhar o passado é masoquismo, ele continua lá e você está aqui. Parece
que nenhum amigo te entende porque todos eles racionalizam o que não dá para
racionalizar: você ainda gosta dele. Ele não gosta de você. O pote de sorvete
que ele deixou para trás acabou, ele está com outra, e você está sozinha.
Quero ter outro fim para isso
tudo, mas é melhor eu me dar um tempo e começar de novo. Neste momento, só há
um homem que pode traduzir essa sensação, que é Chico Buarque de Holanda. Faço
os dele os meus versos: “Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu
sangue quando fervia. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota
que falta pro desfecho da festa. Por favor. Deixe em paz meu coração, que ele é
um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota
d’àgua.”
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