terça-feira, 15 de setembro de 2015

O antes, o durante e o depois: placas tectônicas!

Não há motivo para abrir mais um debate amoroso ou de relacionamentos. Mas há um motivo para abrir meu coração: a passagem de uma época. Quando pensamos na possibilidade de findar com sonhos e enfrentar a vida, enxergá-la como ela é, independente de Nelson Rodrigues, a pior parte é ver desfalecer a frase “viveram felizes para sempre”, porque nessa vida as quatro palavras mágicas são de pura fantasia e ilusão. Ta, podemos viver. Sim, acredito em felicidade. O “para sempre” é um incômodo. Quando lemos estas duas palavras, estamos indo contra várias realidades: a norte, o fim, a mudança de rumos, a mudança de ideias, personalidades, ambições, caráter entre outras coisinhas que esquecemos ao nos deparar com a palavra FELIZ! Com sua sonoridade tangível e morfologia esteticamente bem pensada, não pensamos em mais nada.

            No começo, tudo é muito detalhes. Como pode uma única coisa parecer plural? Os toques da mão, a saliva doce, a passagem da mão no rosto, envolvimento da cintura, a palavra certa na hora certa, justamente aquilo que eu queria ouvir... Como ele pode perceber? Como ele descobriu que eu amo isso? Porque ele disse aquilo? Hum, que pegada diferente... olho no olho... respiração ofegante... meu nome... o seu... Nós.  Tudo junto é o tudo.  Será que o plural é o que torna o tudo? Não importa: o que importa é o aqui e o agora.  O que importa é ser feliz. Já passei pelos outros seis anões para saber que o príncipe não vem e o que eu quero está ali no meu banheiro escovando os dentes, tentando não fazer barulhos desconcertantes. Até fecha a porta e abaixa o assento da privada. Mais uma saída, mais algumas descobertas. Só nós dois. Todos os gostos, vontades e sonhos são compatíveis àquilo que eu pensei viver.
            O pacote. Uma prima minha já namorou um cara que, olhando de fora era um homem ideal, quando ainda se acredita nisso. Ele era lindo, estável, não exageradamente sensível, forte, íntegro, seguro de si e do que queria, cordial, compreensivo, libertador, moderadamente vaidoso, profundo sem ser chato, às vezes chato sem ser irritante, brincalhão sem ser idiota, bom enfim: O PACOTE. Ninguém entendeu quando ela quis se separar dele. As pessoas se perguntavam, será que ele bebe, será que ela é lésbica, será que ele bate, será que ela não quer ser feliz? Então eu fui até ela, e perguntei. Porque nessa hora ninguém te pergunta, todos te dão a resposta para sua vida. E ela me disse: “Natália, como se vive com alguém perfeito sem a compatibilidade dessa perfeição? Eu não vivia, eu me cobrava.” Pois bem, aí está. Até os perfeitos, em sua perfeição, tem seus defeitos. E chega a hora de descobrir a falha, aquilo que pode fazer você mudar de opinião sobre todo o relacionamento. Quais as condições para sobreviver a este relacionamento, ou o desafio desse homem? Às vezes, é a briga pelo controle remoto, política, números de filhos, o passado, o papel higiênico saindo por baixo ou por cima, futebol (isso pode acontecer, acreditem em mim), música, filme, cigarros, ou outros vícios... Tudo isso pode ser.  Mas a gente suporta no durante. O durante é fase que tudo acontece para perceber o outro. No durante, o sexo é o desenvolvimento que une o porque você está ali, a promessa,  ao se você quer continuar ali, o relacionamento em si. Até porque, entenda, as preliminares para as mulheres são tão importantes quanto o aconchego final, e ambos, na maioria dos casos, proporcionam um real bom durante. O durante é quando você busca a ligação para vocês estarem juntos. É praticamente a liga para o bolo dar certo. Porque agora é isso que você quer: que dê certo. Nesta fase, é quando você pensa que não vai precisar passar por isso mais, nem acordar no meio da noite com medo de ficar sozinha o resto da sua vida porque pode dar certo. Enfrentar as vicissitudes da vida fica tranqüilo nessa época. Natais, aniversários, festividades em famílias, tudo vai ser mais fácil com seu cúmplice. Cumplicidade é o que queremos.  Deveríamos fazer uma campanha em prol da cumplicidade. Devemos também ter muito cuidado nessa fase, e ouvirmos o que ele quer, tentar descobrir o que o completa. Porque a quantidade de farinha pode fazer o bolo desandar. E desanda mesmo.
Seja na forma que for, o depois quase nunca é como esperamos. Mas há uma forma pior do que as outras. Isso acontece quando você não foi bem no durante ou no antes, não se sabe muito bem quando, onde, como ou o que.  Só se sabe que ele não te quer mais. Abandonada, você procura andar com sua vida para frente,  e ela parece estancada.  O que andava tão bem era apenas a sua impressão. Eu, pelo menos, passo horas da minha vida procurando um caminho, uma forma de voltar àqueles momentos, mais um minuto feliz, retomar o caminho que estava tão bem, tentando achar uma resposta. E aí, você descobre que tudo era muita lava e pouco concreto, e agora são cinzas. O que você não percebeu foram as placas tectônicas que te afastavam dele. Porque as placas se movem tão lentamente que você não percebe sob seus pés. E por mais que você queira se aproximar como amiga, enfrentar o medo do antes e do durante, as placas tectônicas continuam te afastando dele. Aquele lugar que foi tão de nós dois nos afasta ainda mais porque você percebe que ele não está interessado em você mais e acabou. Não existe mais o durante ou o antes porque acabou, e a única coisa que sobrou foi você e seu coração quebrado em estilhaços. Mexicano. Essa fase é tão terrível que tem até nacionalidade. E tem também hino próprio: o fado. Até porque você está tão sozinho, que você não sabe mais o que fazer com sua mente e tudo o que passa por ela. Enfrentar o futuro é aterrorizante por causa de algumas palavras como: sozinho e novo risco. Olhar o passado é masoquismo, ele continua lá e você está aqui. Parece que nenhum amigo te entende porque todos eles racionalizam o que não dá para racionalizar: você ainda gosta dele. Ele não gosta de você. O pote de sorvete que ele deixou para trás acabou, ele está com outra, e você está sozinha.
Quero ter outro fim para isso tudo, mas é melhor eu me dar um tempo e começar de novo. Neste momento, só há um homem que pode traduzir essa sensação, que é Chico Buarque de Holanda. Faço os dele os meus versos: “Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta pro desfecho da festa. Por favor. Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’àgua.”

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