Escolha de destino
A vida de Nara era muito simples, ordinária mesmo. Ela cresceu em uma família de classe média
com os pais, dois irmãos e uma irmã. A segunda da casa se casou assim que
terminou o normal e começou a ter os filhos cedo. Com cinco anos de casada, já estava com os
três filhos. Dois meninos e uma menina.
Osvaldo, seu marido, era funcionário público e vivia uma
rotina quase sacerdotal. Saía às sete e meia, voltava às sete de segunda a
quinta. Na quinta, chegava ás dez com a devida permissão da esposa para
espairecer com os amigos, já que ele também era filho de Deus. E vez ou outra, ia aos sábados á tarde ver
jogos de futebol com os amigos. Tudo com a devida permissão de sua esposa. Como
é de se esperar de um bom esposo, nunca faltava nada dentro de casa, e em
alguns casos raros, ele trazia para ela um
chamego, uma lembrança como um conjunto de roupas de cama, uma toalha de
mesa rendada e até mesmo um conjunto de panelas novas. Ela se sentia envaidecida
pelo carinho daquele homem que era, em geral, tão seco.
Ela se sentia protegida e até feliz naquele cenário. Não que
ela havia planejado nada daquilo, mas as coisas transcorriam como natural:
nascer, crescer, casar, procriar. Terminou o ensino médio namorando o amigo de
seu irmão mais velho, quem convivia em sua casa desde sempre. Osvaldo a
conhecia de criança, e assim que chegou no último ano da faculdade de direito,
ele decidiu que ao final se casaria com Nara. Eles não viam qualquer motivo
para um namoro mais longo, já que se conheciam há tantos anos, então noivaram
na mesma semana. Foi apenas o tempo para fazer-lhe o enxoval mínimo e casar.
Ao longo do casamento, Osvaldo provinha todas as demandas
que ela esperava de um marido, ou que lhe ensinaram a esperar. Estabilidade
financeira, assistência familiar, dignidade social, enfim, o pacote. Às vezes,
Nara se pegava pensando nos casos apaixonados que sua irmã e primas a contavam
secretamente, mas reprimia rapidamente considerando tudo que ela tinha. Qual
era a vantagem de ter um homem que lhe beijaria na boca, se ele não teria a
firmeza de um pai com os filhos para pô-los para estudar com disciplina e
rigidez? Para que ter um marido que a tocasse com paixão se não tivesse tudo do
bom e do melhor à sua disposição?
Então ela se resignava com o que a vida lhe deu. João, estudante de engenharia, com casamento
marcado para o ano seguinte era o mais velho. Pedro, calouro na faculdade de
medicina, sério e dedicado aos estudos, era o segundo. E Janaína era caçula,
que estudava para Farmácia. Três pérolas que ela agradecia eternamente a
Osvaldo.
Mais uma sexta-feira, mais uma lavagem de roupas. Nara saía
recolhendo todas as roupas remotamente sujas. Muitas vezes, vasculhava em
pilhas de roupas largadas dentro dos armários.
Começou pelo próprio quarto, mas não viu as roupas que Osvaldo usou na
noite anterior. Como era um homem muito organizado, ela esperava achá-las no
cesto na área de serviço. Às vezes, Osvaldo se atrasava um pouco, então se
preparava para dormir do lado de fora do quarto para não a aborrecê-la.
Normalmente no quarto de João. Ela fingia que nada via para não criar caso. Não
valia a pena. Ainda recordou ouvir vozes de discussão e preferiu ignorar. João
andava nervoso com a faculdade e o casamento por vir. Foi para o quarto dele
pensando em todos os conselhos que o pai sempre o dava sobre profissão,
casamento, e mais uma vez, se sentiu grata por ter Osvaldo como marido. O filho
não havia herdado a personalidade ordeira e sistemática do pai. Era roupa para
todos os lados; uma calça social sobre uma camiseta do futebol, com meias
enroladas em um casaco e shorts em cima das roupas de Osvaldo. O que essas
roupas faziam ali? Eram as roupas que ele usou na noite anterior, a mesma calça
de linho e a camisa branca. Ao esticar as roupas, ela pôde ver as marcas
vermelhas de batom, que ele nunca permitiu que ela usasse. Ela rezou
ardentemente que fosse catchup ou mesmo sangue. Mas não podia negar para si
mesma, era batom por várias partes daquela camisa que ela havia lavado e
passado há dois atrás.
Ela não acreditava naquilo. Nem queria acreditar ou ver.
Sentindo o chão esvair sob seus pés acabou por sentar no canto entre a porta e
o armário. A luz da manhã caiu quase imediatamente no pôr-do-sol. Em choque,
acabou percebendo que anoitecia e ela precisava se levantar dali e decidir o
que iria fazer. Seguiu com o dia sem que ninguém percebesse nada. Ao dormir,
Osvaldo avisou a esposa que iria encontrar com os amigos no dia seguinte.
Ela precisava segui-lo para confirmar o encontro com os
amigos. Então assim que ele saiu, logo depois do almoço, ela foi atrás. Pegou
um táxi, e viu quando, há dois bairros depois, uma mulher nova e voluptuosa
abriu a porta de uma casa de dois andares e o beijou na boca longamente, o
envolvendo nos braços e uma das pernas em sua cintura. Ela saiu do táxi. Ficou
do outro lado da rua escondida por uma árvore, rezando para que ele saísse o
mais rápido e tudo aquilo fosse um terrível pesadelo.
Duas horas depois, resignada, ela foi para casa. Entrou e
foi direto para a cozinha, guardar a comida do almoço e lavar as vasilhas. O
passar o tempo se tornou uma tortura. Por mais que ela procurava as coisas de
casa para fazer, o que ela fazia normalmente, nada saía direito. Maria percebeu
o copo quebrado, a mão queimada do ferro e o banheiro sendo esquecido de lavar.
Nara disfarçou e nada disse.
Quando ele chegou, ela percebeu um riso que havia sido
ignorado em outros momentos. Contentamento da rotina tinha sido a desculpa que
ela havia dado àquele sorriso, que agora se tornava o escárnio de sua possível
infelicidade.
Passado o domingo, Nara decidiu que tinha que fazer alguma
coisa. Ela podia não ter a vida dos sonhos, mas a vida era dela e de mais
ninguém. Então após todos saírem para trabalho e escolas, ela trocou de roupa e
saiu para a loja mais requintada da cidade. Após uma olhada rápida, comprou o
vestido mais bonito, vermelho de seda, que ela podia achar na cidade. Pediu
para que a vendedora fizesse o embrulho especial para presente. Pegou o táxi e
foi para a casa de dois andares. A morena voluptuosa abriu a porta, e Nara viu
como ela é bonita. A moça perguntou:
- Posso te ajudar?
-Você não me conhece pessoalmente. Meu nome é Nara. É o meu
marido quem você tem tomado conta. Vim lhe agradecer, mas não precisa mais. Eu
cuido dele de agora pra frente.
Deu-lhe o presente e saiu.
Foi pra casa, se aprontou como nunca antes havia se
arrumado. Banhou, maquiou, perfumou. Fez
de sua figura uma linda mulher, assumindo seus desejos e condição. Quando ele chegou, ela o esperava na cama.
Estranhando, ele se deitou para nunca mais procurar outra cama.
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