terça-feira, 15 de setembro de 2015

Escolha de destino

Escolha de destino

A vida de Nara era muito simples, ordinária mesmo.  Ela cresceu em uma família de classe média com os pais, dois irmãos e uma irmã. A segunda da casa se casou assim que terminou o normal e começou a ter os filhos cedo.  Com cinco anos de casada, já estava com os três filhos. Dois meninos e uma menina.
Osvaldo, seu marido, era funcionário público e vivia uma rotina quase sacerdotal. Saía às sete e meia, voltava às sete de segunda a quinta. Na quinta, chegava ás dez com a devida permissão da esposa para espairecer com os amigos, já que ele também era filho de Deus.  E vez ou outra, ia aos sábados á tarde ver jogos de futebol com os amigos. Tudo com a devida permissão de sua esposa. Como é de se esperar de um bom esposo, nunca faltava nada dentro de casa, e em alguns casos raros, ele trazia para ela um  chamego, uma lembrança como um conjunto de roupas de cama, uma toalha de mesa rendada e até mesmo um conjunto de panelas novas. Ela se sentia envaidecida pelo carinho daquele homem que era, em geral, tão seco.
Ela se sentia protegida e até feliz naquele cenário. Não que ela havia planejado nada daquilo, mas as coisas transcorriam como natural: nascer, crescer, casar, procriar. Terminou o ensino médio namorando o amigo de seu irmão mais velho, quem convivia em sua casa desde sempre. Osvaldo a conhecia de criança, e assim que chegou no último ano da faculdade de direito, ele decidiu que ao final se casaria com Nara. Eles não viam qualquer motivo para um namoro mais longo, já que se conheciam há tantos anos, então noivaram na mesma semana. Foi apenas o tempo para fazer-lhe o enxoval mínimo e casar.
Ao longo do casamento, Osvaldo provinha todas as demandas que ela esperava de um marido, ou que lhe ensinaram a esperar. Estabilidade financeira, assistência familiar, dignidade social, enfim, o pacote. Às vezes, Nara se pegava pensando nos casos apaixonados que sua irmã e primas a contavam secretamente, mas reprimia rapidamente considerando tudo que ela tinha. Qual era a vantagem de ter um homem que lhe beijaria na boca, se ele não teria a firmeza de um pai com os filhos para pô-los para estudar com disciplina e rigidez? Para que ter um marido que a tocasse com paixão se não tivesse tudo do bom e do melhor à sua disposição?
Então ela se resignava com o que a vida lhe deu.  João, estudante de engenharia, com casamento marcado para o ano seguinte era o mais velho. Pedro, calouro na faculdade de medicina, sério e dedicado aos estudos, era o segundo. E Janaína era caçula, que estudava para Farmácia. Três pérolas que ela agradecia eternamente a Osvaldo.
Mais uma sexta-feira, mais uma lavagem de roupas. Nara saía recolhendo todas as roupas remotamente sujas. Muitas vezes, vasculhava em pilhas de roupas largadas dentro dos armários.  Começou pelo próprio quarto, mas não viu as roupas que Osvaldo usou na noite anterior. Como era um homem muito organizado, ela esperava achá-las no cesto na área de serviço. Às vezes, Osvaldo se atrasava um pouco, então se preparava para dormir do lado de fora do quarto para não a aborrecê-la. Normalmente no quarto de João. Ela fingia que nada via para não criar caso. Não valia a pena. Ainda recordou ouvir vozes de discussão e preferiu ignorar. João andava nervoso com a faculdade e o casamento por vir. Foi para o quarto dele pensando em todos os conselhos que o pai sempre o dava sobre profissão, casamento, e mais uma vez, se sentiu grata por ter Osvaldo como marido. O filho não havia herdado a personalidade ordeira e sistemática do pai. Era roupa para todos os lados; uma calça social sobre uma camiseta do futebol, com meias enroladas em um casaco e shorts em cima das roupas de Osvaldo. O que essas roupas faziam ali? Eram as roupas que ele usou na noite anterior, a mesma calça de linho e a camisa branca. Ao esticar as roupas, ela pôde ver as marcas vermelhas de batom, que ele nunca permitiu que ela usasse. Ela rezou ardentemente que fosse catchup ou mesmo sangue. Mas não podia negar para si mesma, era batom por várias partes daquela camisa que ela havia lavado e passado há dois atrás.
Ela não acreditava naquilo. Nem queria acreditar ou ver. Sentindo o chão esvair sob seus pés acabou por sentar no canto entre a porta e o armário. A luz da manhã caiu quase imediatamente no pôr-do-sol. Em choque, acabou percebendo que anoitecia e ela precisava se levantar dali e decidir o que iria fazer. Seguiu com o dia sem que ninguém percebesse nada. Ao dormir, Osvaldo avisou a esposa que iria encontrar com os amigos no dia seguinte.
Ela precisava segui-lo para confirmar o encontro com os amigos. Então assim que ele saiu, logo depois do almoço, ela foi atrás. Pegou um táxi, e viu quando, há dois bairros depois, uma mulher nova e voluptuosa abriu a porta de uma casa de dois andares e o beijou na boca longamente, o envolvendo nos braços e uma das pernas em sua cintura. Ela saiu do táxi. Ficou do outro lado da rua escondida por uma árvore, rezando para que ele saísse o mais rápido e tudo aquilo fosse um terrível pesadelo.
Duas horas depois, resignada, ela foi para casa. Entrou e foi direto para a cozinha, guardar a comida do almoço e lavar as vasilhas. O passar o tempo se tornou uma tortura. Por mais que ela procurava as coisas de casa para fazer, o que ela fazia normalmente, nada saía direito. Maria percebeu o copo quebrado, a mão queimada do ferro e o banheiro sendo esquecido de lavar. Nara disfarçou e nada disse.
Quando ele chegou, ela percebeu um riso que havia sido ignorado em outros momentos. Contentamento da rotina tinha sido a desculpa que ela havia dado àquele sorriso, que agora se tornava o escárnio de sua possível infelicidade.
Passado o domingo, Nara decidiu que tinha que fazer alguma coisa. Ela podia não ter a vida dos sonhos, mas a vida era dela e de mais ninguém. Então após todos saírem para trabalho e escolas, ela trocou de roupa e saiu para a loja mais requintada da cidade. Após uma olhada rápida, comprou o vestido mais bonito, vermelho de seda, que ela podia achar na cidade. Pediu para que a vendedora fizesse o embrulho especial para presente. Pegou o táxi e foi para a casa de dois andares. A morena voluptuosa abriu a porta, e Nara viu como ela é bonita. A moça perguntou:
- Posso te ajudar?
-Você não me conhece pessoalmente. Meu nome é Nara. É o meu marido quem você tem tomado conta. Vim lhe agradecer, mas não precisa mais. Eu cuido dele de agora pra frente.
Deu-lhe o presente e saiu.

Foi pra casa, se aprontou como nunca antes havia se arrumado. Banhou, maquiou, perfumou.  Fez de sua figura uma linda mulher, assumindo seus desejos e condição.  Quando ele chegou, ela o esperava na cama. Estranhando, ele se deitou para nunca mais procurar outra cama. 

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