Acordei no meio da noite, preocupada com algumas coisas, então achei melhor tomar um leite achocolatado para ver se acalmava. A sala escura, meu irmão dormia com a televisão ligada. Resolvi não acordá-lo, e tomar meu leite no escuro mesmo para não perturbar. Abri a geladeira, pus o leite no copo, aproveitei para sentir um friozinho vindo da geladeira e usar a luz para não derramar o leite no chão. Era só o que me faltava ter que limpar o chão da cozinha no meio da madrugada. Como se não bastasse o dia todo trabalhando.
Peguei a colher, o chocolate em pó, visualizei a televisão. "Não acredito que meu irmão dormiu vendo esse programa horrível!" Coloquei uma colher. "Deve ter dormido antes disso começar!" Coloquei a segunda colher. "Mas como é que isso está no ar?" Misturei o chocolate. "Tem gosto pra tudo nessa vida mesmo." Tomei um gole. "Tanta coisa que podia ser mais educativa, de bom gosto... e as pessoas vêem isso! Credo!" No segundo gole, senti que havia uma bolinha diferente no meu leite. "Hum, que delícia! Deve ser aquelas bolinhas cheias de achocolatado que estouram na nossa boca e espalham areia de chocolate pela língua."
Nesse momento, estourei a bolha com o céu da boca e, para minha surpresa, não veio nenhuma areinha depois do estouro. Ao invés disso, senti espalhar uma gelatina mole por sobre minha boca, sem gosto definido e um cheiro ardido adentrou minha narina. "E agora, o que eu faço? Engulo, cuspo?" Não deu tempo para nada. Aquela plasta molenga e mal cheirosa desceu minha garganta abaixo tomando conta até da minha visão pois eu já não enxergava coisa alguma pois as lágrimas haviam enchido meus olhos de água. Não respirava direito sentindo descer pela garganta aquilo que começava a parecer uma lesma morta de tão vagaroso seu movimento.
Em menos de um segundo tudo havia acabado. O cheiro havia sumido, não havia gosto em minha língua e a sensação pegajosa havia desaparecido.
Bom é melhor dormir. Amanhã descubro que bicho me mordeu.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Salutem
E de tudo o que ficou foi a breve brisa que leva consigo a
imortalidade. Esse sopro que nos bate a cara e desmonta nossa ilusão de que
tudo vai dar certo. O que não foi o que aconteceu. Eu te conto o que aconteceu.
Na verdade, eu nos conto porque também tento entender o que
me recompõe nesse retorno. Após tantos anos, revendo tantas memórias questiono
minha sanidade. Desde a morte de Otávio, os acontecimentos vêm destruindo todos
meus pilares e convicções. Um turbilhão sobrevoando minha vida que parece já
não me pertencer.
Na primeira semana que estava de volta a Moraí, uma
esperança de que tudo havia mudado tomou conta de mim. Quase me cegava essa
ansiedade de ver o novo em qualquer lugar. As ruas estavam no mesmo lugar com
lojas diferentes. Onde antes era a farmácia do seu Alaor, que sempre dava balas no dia de São
Cosme e Damião, hoje se transformara em uma loja de vestidos de marca. Onde era
a oficina do Cléber com um cachorro preto imenso de vigia, agora se via um
galpão alto improvisado como restaurante de comida estado-unidense. Minha
cidade não existia mais. Eu tinha que me acostumar a desfazer daquilo que
habitava somente minha mente.
Tentei tomar uma atitude de psicologia inversa, olhando
apenas para o que nunca havia visto antes. Toda vez que me deparava com algo
minimamente familiar, passava por cima com pensamentos inquietantemente
contraditórios á minha personalidade. Comecei a ignorar os abusos verbais de
minha mãe, que tentava insistentemente destruir com todas as minhas escolhas.
Meu posicionamento era contrapô-la com frases positivas sobre o mesmo assunto.
“-Você só está sozinha porque insistiu nessa loucura de não ter filhos.” “- Não
estou sozinha, mamãe, estou com você.” Ela arregalava os olhos, procurava em
sua mente uma tréplica não apenas para aquela resposta, mas também uma réplica
para aquele posicionamento que destruía com o status quo que estruturava a relação como ela entendia existir. Sem
perder mais do que um minuto, soltava “-Viver com uma velha não vai durar muito
sua companhia.” Aos poucos e com uma imensa bagagem de paciência, fui tentando
conduzir para uma convivência menos perturbadora.
Depois de conseguir um trabalho de diagramação em uma
empresa de plotagem, conheci uma prima de uma amiga minha de infância, Carol,
que me apresentou a Rosana que era amiga de uma prima minha que cresci junta.
Incrível como o mundo é pequeno. Não me lembrava de nenhuma das duas, mas ambas
traziam momentos vívidos em suas lembranças de momentos comigo do passado. Mas
eu já superava o mais rápido possível essa conversa antes que tocassem em mim
qualquer familiaridade.
Comecei a não retornar a bares e restaurantes que havia ido antes, mudar os
caminhos e as formas de ir ao trabalho, dar bons dias em línguas diversas,
enfim, tudo o mais novo possível naquela velha cidade. Um certo anseio por
qualquer novidade dentro da minha rotina começou a tornar uma obsessão.
Internet, dicionários, revistas, tudo isso já não me satisfazia. As pessoas já
não me faziam sentido. Parei de conversar. Comecei a conversar com os cachorros
nas ruas. Ficava horas trocando olhares e uivos. Me cansei. Busquei os gatos,
os ratos, as baratas... tudo naquela cidade já era velho e usado.
Minha chefe me pediu para conversar. Sentei em sua sala.
Olhei para um lado, para outro. Três por quatro comum, uma parede com quadro,
uma lisa, uma janela e porta, um armário. Uma mesa com papéis, um computador,
uma caneta na mão e um discurso chato. Pedi demissão! Conversar nada. Ela
queria me dar sermão de como eu estava me comportando. Falava para mim que
estava preocupada porque eu não conversava com ninguém e vestia roupas que não
fazia o menor sentido. Como se houvesse sentido uma calcinha dentro ou fora da
calça. Aquilo já estava ficando velho mesmo. Um mês de trabalho no mesmo lugar,
fazendo a mesma coisa, já deu.
Comecei a andar pela cidade. Não aquelas ruas que eu já
conhecia. Procurava as ruas que eu nunca tinha ido antes. Pensava quantas
pessoas haviam morrido naquele lugar. Onde teria fantasma naquele lugar
assombrado. E talvez se eu me comunicasse com eles, a conversa poderia ser
outra. Cansei. Sentei. Dormi.
Acordei em uma cama que não era minha. Vi minha mãe e minha
irmã conversando com uma pessoa longe e me sentia pesada. Dormi novamente.
Acordei com uma pessoa arrumando as coisas ao meu redor. Perguntei onde estava.
A moça me respondeu que iria buscar o médico. Ainda imaginei que se ela estava doente, era
bom procurar um médico mesmo. Mas ainda não havia me respondido. Sentei na cama
sentindo grogue. O homem de branco chegou,me chamou pelo nome e disse que tudo
ia ficar bem, era só eu ficar calma. Eu achei bom. Naquele ritmo frenético do
dia-a-dia, todo mundo apavorado, alguém me disse que tudo ia ficar bem. Sorri e
ele sorriu de volta. Comunicação perfeita. Vamos tomar sol? – disse a moça que
arrumava antes. Ah, claro!! Sol!
Um pátio imenso cheio de pessoas diferentes, fazendo coisas
diferentes, falando coisas que não se entendiam e o sol – como é bom estar no
paraíso!
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Fé e a ciência do futebol
Fé e a ciência do futebol
Nasci menina. E em um sistema conservador, não era esperado
ou “permitido” minha participação em
assuntos futebolísticos. Ao longo dos anos, sendo meu irmão mais próximo em
idade do que minhas irmãs e meu pai mais próximo em discussões do intelecto, aproximei-me
do assunto, que para muitas meninas da minha geração e cidade, um tabu.
Quando se deu o campeonato brasileiro de 99, vi minha paixão
pelo Galo eclodir, na esperança geral da capital mineira de levar o título. O
assunto não era mais tabu e aos poucos fui percebendo os lances, as
genialidades, as imbecilidades e erros. Sim, erros. O futebol é feito
prioritariamente de humanos. E erram por todos os lados. E mais humano do que
isso, amam profundamente, apaixonadamente, loucamente por todos os lados
É claro que, sendo uma professora de língua estrangeira e
entendendo a lingüística como ciência, tentei por diversas vezes racionalizar
aquilo que me tomava do coração ao resto do corpo, aniquilando inclusive o
pensamento. Há pouco tempo fui a uma palestra de neurociência, e o professor
explicou com vasto conhecimento e detalhes que somos seres principalmente
emocionais. Ele disse que o pensamento chega após a propagação das emoções,
isto em termos vagos pois esse não é o assunto em questão.
O assunto em questão é o Mauro Cézar Pereira no último Linha de Passe e
São Victor.
Veja bem: eu sou mineira, atleticana. Como não ser devota de
São Victor do Horto? Portanto na hora do pênalti, eu juntei minhas mãos,
sofrendo em fé, cantei que Victor iria pegar. Eu tenho absoluta clareza de que
contribui com aquele momento, mandando uma vibração atleticana para aquele que
nos deu o maior livramento de todos, a ressurreição de que podemos ser
campeões.
Pois bem! Ouvi com atenção os números e relatos do excelente
jornalista no Linha de Passe na última segunda-feira, 14/09. Extrai de mim,
toda minha paixão e dei voz ao meu lado científico e sereno. Compreendi o que
foram os resultados de estudo aplicado como conseqüência de ações em prol de
vencer uma partida, e até um campeonato. Tentei relevar as alegrias que o
Pratto me deu neste curto período de
atuação, sem nem mesmo reclamar de adaptação ao futebol brasileiro, pensando
que nos números, talvez ele poderia estar em pior fase que o Love.
Após considerar os pontos de fé versus os pontos
científicos, fiquei com a premissa maior inicial: futebol é humano. A ciência
não. A ciência tem que estar à disposição da humanidade. A humanidade é
imprevisível. Agradeço o debate que me trouxe o jornalista, mas escolho o rumo
da humanidade no futebol. Escolho porque eu acredito. E porque não pode ser
baseado em números, porque não é frio é que o futebol é tão emocionante. Vamos
ser humanos!
O antes, o durante e o depois: placas tectônicas!
Não há motivo
para abrir mais um debate amoroso ou de relacionamentos. Mas há um motivo para
abrir meu coração: a passagem de uma época. Quando pensamos na possibilidade de
findar com sonhos e enfrentar a vida, enxergá-la como ela é, independente de
Nelson Rodrigues, a pior parte é ver desfalecer a frase “viveram felizes para
sempre”, porque nessa vida as quatro palavras mágicas são de pura fantasia e
ilusão. Ta, podemos viver. Sim, acredito em felicidade. O “para
sempre” é um incômodo. Quando lemos estas duas palavras, estamos indo contra
várias realidades: a norte, o fim, a mudança de rumos, a mudança de ideias,
personalidades, ambições, caráter entre outras coisinhas que esquecemos ao nos
deparar com a palavra FELIZ! Com sua sonoridade tangível e morfologia
esteticamente bem pensada, não pensamos em mais nada.
No
começo, tudo é muito detalhes. Como pode uma única coisa parecer plural? Os
toques da mão, a saliva doce, a passagem da mão no rosto, envolvimento da
cintura, a palavra certa na hora certa, justamente aquilo que eu queria
ouvir... Como ele pode perceber? Como ele descobriu que eu amo isso? Porque ele
disse aquilo? Hum, que pegada diferente... olho no olho... respiração
ofegante... meu nome... o seu... Nós.
Tudo junto é o tudo. Será que o
plural é o que torna o tudo? Não importa: o que importa é o aqui e o
agora. O que importa é ser feliz. Já
passei pelos outros seis anões para saber que o príncipe não vem e o que eu
quero está ali no meu banheiro escovando os dentes, tentando não fazer barulhos
desconcertantes. Até fecha a porta e abaixa o assento da privada. Mais uma
saída, mais algumas descobertas. Só nós dois. Todos os gostos, vontades e
sonhos são compatíveis àquilo que eu pensei viver.
O
pacote. Uma prima minha já namorou um cara que, olhando de fora era um homem
ideal, quando ainda se acredita nisso. Ele era lindo, estável, não
exageradamente sensível, forte, íntegro, seguro de si e do que queria, cordial,
compreensivo, libertador, moderadamente vaidoso, profundo sem ser chato, às
vezes chato sem ser irritante, brincalhão sem ser idiota, bom enfim: O PACOTE.
Ninguém entendeu quando ela quis se separar dele. As pessoas se perguntavam,
será que ele bebe, será que ela é lésbica, será que ele bate, será que ela não
quer ser feliz? Então eu fui até ela, e perguntei. Porque nessa hora ninguém te
pergunta, todos te dão a resposta para sua vida. E ela me disse: “Natália, como
se vive com alguém perfeito sem a compatibilidade dessa perfeição? Eu não vivia,
eu me cobrava.” Pois bem, aí está. Até os perfeitos, em sua perfeição, tem seus
defeitos. E chega a hora de descobrir a falha, aquilo que pode fazer você mudar
de opinião sobre todo o relacionamento. Quais as condições para sobreviver a
este relacionamento, ou o desafio desse homem? Às vezes, é a briga pelo
controle remoto, política, números de filhos, o passado, o papel higiênico
saindo por baixo ou por cima, futebol (isso pode acontecer, acreditem em mim),
música, filme, cigarros, ou outros vícios... Tudo isso pode ser. Mas a gente suporta no durante. O durante é
fase que tudo acontece para perceber o outro. No durante, o sexo é o
desenvolvimento que une o porque você está ali, a promessa, ao se você quer continuar ali, o
relacionamento em si. Até
porque, entenda, as preliminares para as mulheres são tão importantes quanto o
aconchego final, e ambos, na maioria dos casos, proporcionam um real bom
durante. O durante é quando você busca a ligação para vocês estarem juntos. É
praticamente a liga para o bolo dar certo. Porque agora é isso que você quer:
que dê certo. Nesta fase, é quando você pensa que não vai precisar passar por
isso mais, nem acordar no meio da noite com medo de ficar sozinha o resto da
sua vida porque pode dar certo. Enfrentar as vicissitudes da vida fica
tranqüilo nessa época. Natais, aniversários, festividades em famílias, tudo vai
ser mais fácil com seu cúmplice. Cumplicidade é o que queremos. Deveríamos fazer uma campanha em prol da
cumplicidade. Devemos também ter muito cuidado nessa fase, e ouvirmos o que ele
quer, tentar descobrir o que o completa. Porque a quantidade de farinha pode
fazer o bolo desandar. E desanda mesmo.
Seja na forma que for, o depois
quase nunca é como esperamos. Mas há uma forma pior do que as outras. Isso
acontece quando você não foi bem no durante ou no antes, não se sabe muito bem
quando, onde, como ou o que. Só se sabe
que ele não te quer mais. Abandonada, você procura andar com sua vida para
frente, e ela parece estancada. O que andava tão bem era apenas a sua
impressão. Eu, pelo menos, passo horas da minha vida procurando um caminho, uma
forma de voltar àqueles momentos, mais um minuto feliz, retomar o caminho que
estava tão bem, tentando achar uma resposta. E aí, você descobre que tudo era
muita lava e pouco concreto, e agora são cinzas. O que você não percebeu foram
as placas tectônicas que te afastavam dele. Porque as placas se movem tão
lentamente que você não percebe sob seus pés. E por mais que você queira se
aproximar como amiga, enfrentar o medo do antes e do durante, as placas
tectônicas continuam te afastando dele. Aquele lugar que foi tão de nós dois
nos afasta ainda mais porque você percebe que ele não está interessado em você
mais e acabou. Não existe mais o durante ou o antes porque acabou, e a única
coisa que sobrou foi você e seu coração quebrado em estilhaços. Mexicano.
Essa fase é tão terrível que tem até nacionalidade. E tem
também hino próprio: o fado. Até porque você está tão sozinho, que você não
sabe mais o que fazer com sua mente e tudo o que passa por ela. Enfrentar o
futuro é aterrorizante por causa de algumas palavras como: sozinho e novo
risco. Olhar o passado é masoquismo, ele continua lá e você está aqui. Parece
que nenhum amigo te entende porque todos eles racionalizam o que não dá para
racionalizar: você ainda gosta dele. Ele não gosta de você. O pote de sorvete
que ele deixou para trás acabou, ele está com outra, e você está sozinha.
Quero ter outro fim para isso
tudo, mas é melhor eu me dar um tempo e começar de novo. Neste momento, só há
um homem que pode traduzir essa sensação, que é Chico Buarque de Holanda. Faço
os dele os meus versos: “Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu
sangue quando fervia. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota
que falta pro desfecho da festa. Por favor. Deixe em paz meu coração, que ele é
um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota
d’àgua.”
Folhas urbanas, memórias em papéis
Folhas urbanas, memórias em papéis
Era uma família de 14. A mãe viúva, com seus
seis filhos. O pai viúvo, com seus seis filhos. E Emanuel Chagas Santiago.
Nasceu dessa união de família em uma casa pequena, onde ainda dividia o quarto
com suas irmãs para que elas pudessem tomar conta dele na única hora que a mãe
dormia. Eram sete mulheres, cinco homens, o pai, a mãe e Emanuel. Franzino que
nem ele só, todos achavam estranho sua orelha desproporcional, seu olhar
arregalado e a boca sempre aberta. Cresceu no meio daquele tanto de gente,
sempre os mais velhos implicando com ele: “Emanuel, quantos filhos tem sua
mãe?” “Sete.”, respondia ele. “Emanuel, quantos filhos tem seu pai?” “Sete.”. E
aí, vinha o deboche: “Então Emanuel, vocês são quatorze?”. “Não, somos treze.”
E todos riam da criança que não conseguia se explicar.
Com o passar do tempo, sua
timidez se aguçou de tal forma que, quando da morte do pai aos seus nove anos,
Emanuel já não conversava com ninguém além de sua mãe. Dona Palma, professora
formada, costureira de mão cheia, parteira e curandeira, entre outros atributos
de boa dona de casa, teve de desenvolver uma fórmula para sustentar sozinha
seus filhos e enteados. Educava as crianças dentro de casa para não ter mais
gastos com escola, espichava até não poder mais a pensão de dois maridos
falecidos, costurava vestidos para as moças e madames e distribuía favores pela
vila afora fazendo partos e curando males em regiões aonde médicos e
enfermeiros não chegavam. Sempre Emanuel na barra de sua saia. Emanuel não
desgrudava de sua mãe, e todos achavam que ele tinha um problema sem solução.
Achavam estranha sua face um tanto destorcida, sua forma de ignorar qualquer um
que estivesse à sua volta, não respondia, não olhava nos olhos de ninguém,
ficava a balançar a cabeça em diagonal de cima para baixo e a boca sempre
aberta com o queixo caído e o beiço inferior avantajado.
Agitado, sem bulir com ninguém,
chamava atenção por seus repentinos descontroles de gritos e tremores de mãos,
quase se batendo no rosto. A mãe dizia: “Emanuel é meu anjo, não bula com ele,
senão se verá comigo.” E assim foi crescendo grudado à mãe.
Aos
dezesseis anos, Emanuel perdeu a mãe. Todos ficaram preocupados com o futuro
daquele jovem. Não por condições de moradia, pois ao ficar viúva pela segunda
vez, o governo concedeu à sua mãe o direito à casa própria. Muito mais pela
solidão em si. A
primeira providência a ser tomada era como contar a Emanuel do ocorrido.
Chamaram então o filho do prefeito, primo de Emanuel, que era médico para conversar
com ele. Doutor Eloízio, acostumado com este tipo de tarefa, explicou várias
vezes de inúmeras formas diferentes sobre o que era morte e o que havia
acontecido com a mãe. Após todas as tentativas, já exaurido, o primo lhe
perguntara: “Emanuel, você entendeu?” Emanuel lhe pisca em sinal afirmativo.
Intrigado, o médico questiona: “Mas você não vai chorar? É a sua mãe.” Após
muitos anos de silêncio, ele soltou uma frase: “Chorar agora, não, agora ela
não sofre mais.” Assim como o médico, toda a cidade ficou comovida com o
entendimento daquele jovem que ninguém esperava quase nada. Então todos
começaram a cuidar de Emanuel. A cidade se revezava dando-lhe alimento e roupa.
Ele comia bem, mas não usava as roupas que lhe eram dadas.
Após um mês
da morte da mãe, Emanuel, sem qualquer explicação, começou a varrer a cidade.
Começava de manhã e só parava no final da cidade no começo da noite. Todos os
dias. Pequenas paradas para comer quando alguém lhe dava comida, e seguia em frente. Produzia
suas próprias roupas de jornal e cola. Uma roupa diferente por dia para varrer
a cidade. Um dia a mulher do prefeito o viu parado sentado ao meio fio, lendo
um catálogo telefônico. Ela começou a lhe trazer um livro por dia, e ele os
devorava em poucas horas e voltava a varrer. Um mês, uma média de trinta livros
lidos. Ele não aceitava livros repetidos. Às vezes, davam o mesmo livro com uma
nova capa, não adiantava, ele não aceitava. Começava a ler, jogava o livro fora
e voltava a varrer. A cidade desenvolveu tal cuidado com aquela entidade
municipal que, quando viajavam para cidades maiores como Governador Valadares,
Ipatinga, Caratinga ou até mesmo Belo Horizonte, todos traziam livros para
Emanuel. Inúmeros livros, difíceis ou fáceis, Emanuel os adorava.
Aos trinta
e dois anos, Emanuel morreu dormindo. Sem necessidade de uma autópsia
detalhada, a cidade entendeu a morte morrida de Emanuel. Acharam-no no terceiro
dia de falecido, após arrombar sua porta por causa de um mal cheiro e um
amontoado de folhas pela cidade. Aberta a porta de sua casa, havia uma imensa
quantidade de livros, um colchão e Emanuel sobre ele. Ao retirar o corpo,
levantaram o colchão e descobriram inúmeros contra-cheques debaixo do colchão.
Emanuel nunca havia parado de receber o dinheiro da pensão de sua mãe, mas
também nunca os havia descontado. Guardava-os. Ao ver aquela casa abandonada,
todo aquele dinheiro e os livros, o prefeito só podia fazer uma única coisa:
abrir uma biblioteca. E assim foi feita em Inhapim a biblioteca Emanuel Chagas
Santiago.
Além do viver
Além do viver
Eu olhava para aquelas linhas atônita como se elas tivessem
aparecido de uma hora para outra. O ressecado, a s irregularidades, manchas
estavam tão destoante do sentimento juvenil que me invadia naquela manhã. O sol
ainda quebrando o céu e a chaleira apitando me tiraram daquele devaneio.
Impressionante a transposição mental no tempo.
Ajeitei o chinelo no pé, ouvi o jornal batendo na porta do
desleixo do entregador, passei o café, fui até a porta, abri. Um vento
inesperado invadiu meu rosto e minha espinha. Era hoje. Fechei os olhos e
sonhei por um minuto. Quanto tempo levará até o final do dia? Peguei o jornal,
voltei para cozinha. Pus a mesa. Ele veio. Sentou. Pôs o café. Bebeu. Aquele
silêncio gritante de infelicidade que nem mais dá bom dia pela banalidade dos
anos.
- Você vem almoçar?
-Não sei. Tenho uma reunião no fim da manhã. Acho que não.
Te aviso.
-Avisa quando?
-Quando der. Tchau.
Não podia ficar mais nos pensamentos. A vida deveria
continuar normalmente até segunda ordem. Limpar cozinha. Atender o telefone.
- Alô... Oi, minha filha... Bom dia!... Ele já saiu....
Sei... Hum-hum... Claro que pode. Avisa sua irmã que você vem, quem sabe ela
também não anima. O seu irmão já vai almoçar aqui mesmo...Tudo bem... Vou fazer
aquela torta de frango que você adora. ... Tudo bem. ... Deus te abençoe. ...
Beijos e até mais tarde.
Coisa pra fazer era o que não me faltava. Por outro lado,
vontade não era lá aquelas coisas. Mas tinha que me manter ocupada para não
enlouquecer. Limpar a casa, arrumar cozinha, descongelar o frango.
Pontualmente às oito, Marisa vem tomar nosso café.
-Trouxe pão fresco. Bom dia! Tudo bem?
-Tudo bem. Por que pergunta?
-Por que é o que as pessoas educadas fazem, Neusa. É tão
absurdo esse abuso que fazem contigo que já perdeu a noção de civilidade?
-Ah, Marisa... não sei porque você insiste nisso...
-Porque gosto de você. Me conta... É hoje?
-Sim... – finalmente abri meu sorriso que havia reprimido
para não transparecer minha felicidade desde a semana anterior. Naquela quarta-feira,
não acreditei quando, no meio do supermercado, eu vi aquela imagem. De todas as
pessoas do meu passado, tinha que encontrar justamente com Lígia. Quase trinta
anos sem nos ver e em uma trivialidade de compras para casa, ela volta para
minha vida. Aproximei com cuidado, com um plano B... se ela não me reconhecer,
finjo procurar por tomates... O coração acelerava, a mão tremia e suava, um
gelado tomava conta do meu estômago e espalhava por todo meu ser... até que ela
me olhou. Tudo parou. Tudo voltou ao normal. Um normal que não sentia há mais
de trinta anos. Ela sorriu. Eu sorri. Esquecemos as compras e fomos tomar um
café. No dia seguinte, almoço.
Conversávamos como se o tempo não tivesse nos separado. Eu
contava das minhas bobagens de dona de casa, mãe, esposa, pequenas viagens para
praia em que mais trabalhava do que me divertia. Ríamos com estórias de meus
filhos. Maravilhava-me todos os casos de suas viagens pelo mundo como
restauradora. Ela me contava com tantos detalhes que eu conseguia enxergar as
obras que nunca vi. A tarde passou como vento. Tinha que voltar para casa.
Cícero ia chegar a qualquer momento.
-Eu te levo.
-Tudo bem.
Fomos ainda rindo com paz no coração.
-É aqui. Depois que as crianças casaram, vendemos a casa, e
ficamos com esse apartamento. Para nós dois, tá bom.
-Pensei muito em você em Veneza. Ainda me recordo o tanto
que você gostava da música do Aznavour.
-Que c’est triste Venise... É triste mesmo?
-Quando não se ama mais? Não sei... sempre amei. Não estive
lá sozinha.
-Não?
-Já não disse que pensei muito em você em Veneza...
Minha boca secou. Meu coração parou. Eu não piscava. Eu não
mexia. Mas ela se mexeu. Encaixou-me um beijo em perfeita sintonia de minha
paixão. Quente, molhado, longo voltando a fazer pulsar os sentimentos mais
adormecidos de minha alma. Seus braços me envolviam como uma nuvem flutuante.
Os lábios saíram e os olhares entraram em cena aos prantos porque o amor havia
nos encontrado. Um amor que nem uma, nem a outra havia pensado em viver. No
susto, abri a porta e saí correndo para dentro de casa como uma criança que
havia feito coisa errada. Em casa, entrei correndo no banheiro, sentei no chão
e chorei. Chorei por ter descoberto o tanto que eu era infeliz.
-Neusa, Neeeuuusaa...
acorda pra me contar...
-Ah, Marisa... nem sei o que te dizer... É tudo tão novo e
tão antigo que me embolo toda.
-Calma! O que você precisa manter em mente é o que você quer
para sua vida daqui pra frente. Acreditar que você pode e deve ser feliz. Já fez tudo que podia para seus filhos, seu
marido. E agora precisa ser feliz por você. Você tem esse amor reprimido por
tanto tempo, todos os desejos que qualquer mulher tem o direito de ter
descartado por uma convenção tão velha quanto eu ou você... Absurdo!
-Mas, Marisa... e meus filhos? Eu vou perder o amor deles, o
respeito... Eles não entenderão.
-Ninguém conhece o amor aos 10 anos e o reconhece aos 60. É
amor! Eles vão entender. Vai ser difícil, eles vão resistir, mas no final eles
vão aceitar... Você vai ver... Como vai ser? Como vocês combinaram?
-Marisa... já são
9:30. Preciso fazer almoço e me preparar. Daqui a pouco, Solange chega.
Ela vem pra me ajudar e vou começar contando a ela.
O fechar da porta nunca me bateu tão cheia de solidão como
dessa vez.
A solidão ultrapassava ausência. Transformava-se em um
buraco negro que se abria debaixo dos meus pés. O que dizer? Como traduzir tudo
que se passava por mim por tantos anos? Como explicar a responsabilidade de
filha, mulher, esposa e mãe? Será que eu mesma entendia?
Cozinhar o frango, fazer a massa da torta... Ocupar-me era a
saída mais fácil.
-Oi, mãe. A porta estava destrancada. Você sabia disso?
-Marisa acabou de sair, minha filha.
-Mas não é bom, mãe. Não é seguro. O que você quer que eu faça?
Mãe... você está tremendo? O que houve? Você está chorando? O que foi?
-Nada...
-Como nada? Óbvio que é alguma coisa... Senta um pouco, fala
comigo. Vou pegar uma água.
Eu olhava Solange. Via seus olhos grandes e curiosos como
quando era criança. Nada saía. Nenhuma palavra.
Sua boca mexia, mas eu não escutava nada.
-Só estou cansada, querida... Comece a fazer a massa. A
receita está do lado do filtro. Eu vou deitar um pouco.
No caminho para o quarto, meu estômago contorcia de dores, e
o sangue corria gelado pelas veias. A dor de uma faca quente atravessava meu
peito e cruzava meu braço, minha vista começava a ficar escurecida...
-Mãe? Mãe?
Minha cabeça bateu no chão e eu já não mexia.
-Alô? Uma ambulância na rua Tolerância, número 624,
apartamento 102, por favor? Urgente... Minha mãe... não sei o que ela tem... caiu... inconsciente...
Abri meus olhos e via uma árvore em um campo verde. Sonho
bom. Flutuante. Do lado, estava Solange, Iara e Junior chorando copiosamente.
Quis ir até eles. Não conseguia. Continuava a flutuar. Cícero também estava lá.
Rígido e seco. Mas abalado. E ao longe, senti a perda da vida ao ver Lígia.
Agora entendi o que era não viver.
Pesos, medidas, valores
Pesos, medidas, valores
Ele se chamava Inácio. Era o farmacêutico do bairro. Sempre
solícito e querido por todos. Nos seus 45 anos, morava na parte de cima de uma
casa deixada por seus pais, deixando para o segundo andar sua farmácia. Vivia
ali com o vazio e o silêncio. Uma casa grande de três quartos, cozinha larga,
duas salas, dois banheiros... um desperdício, pensava ele. Ele que sonhou,
quando mais novo, em se casar e ter vários filhos, via agora o tempo
aniquilando seu sonho.
Claro que havia tido namoradas. A primeira ainda na
adolescência namorou por 3 anos, noivou por 6 meses e, um dia, sem uma
explicação clara, Mônica o deixou. Ainda hoje lembrava seu jeito doce, seus
olhos verdes e mãos delicadas. Na faculdade, namorou Luciana. Alta, magra, dona
de um sorriso largo e risada calorosa. Por 5 meses, foi feliz. Ao final, ela
não sabia se explicar, chorava muito e pedia por seu perdão mas não podia mais
ficar com ele. E finalmente resolveu namorar a amiga de uma prima, que há anos
insistia nessa tecla. Depois de 1 ano, Rosária sumiu. Não atendia telefone,
quando ele ia a sua casa, ela dava um jeito de sair e falava que ligava depois,
mas nada. Sem explicação. Ao longo dos anos, eventuais encontros de sexo casual
e permanentes idas ao prostíbulo do outro lado da cidade o mantiveram com uma
certa paciência.
Eis que naquela semana, uma nova família se mudou para rua
do lado. Os pais idosos e a moça. Já não era mocinha. Com 40 anos, Isaura só
sabia de cuidar dos pais. Baixinha, com corpo arredondado, os olhos manchados
com uma queimadura de infância e alguns problemas de fala.
No meio da madrugada, Seu Camilo, pai de Isaura, teve uma
súbita subida de pressão. Indicaram para a moça que chamassem Inácio. E assim
se conheceram. No escuro, Inácio não percebeu a figura de Isaura, mas sua dedicação,
cuidado e delicadeza o chamaram a atenção. No dia seguinte, ele conseguiu a ver
com mais detalhes. A repugnância tomou o seu ser mais do que sua consciência de
culpa cristã lhe permitia. Mas seu pavor da solidão o corroia mais. No final da
consulta, tomou coragem e a convidou para jantar. Ela, sem saber o que fazer,
disse sim.
Saíram para jantar em um pequeno restaurante italiano, quase
caseiro, perto dalí. Isaura tinha conhecimento de todo e qualquer assunto. Não
de maneira presunçosa, mas desenvolvia bem as discussões, buscando mais e mais
o conhecimento que lhe faltava. Alegre e otimista, trazia sempre a doçura de
que tudo era possível desde que trabalhássemos para aquilo. Mas era feia! Ele
olhava para ela e via como sua fisionomia não trazia um traço agradável.
Ao final, ele a levou até a porta de casa. Ela sorrindo,
claramente receptiva e esperançosa por um momento de afeto. Para ele, aquele
seria o momento que, normalmente, ele beijaria a moça, não teve coragem.
Deu-lhe a mão e um beijo no rosto.
Foi pra casa. Deitou na cama. Revirava-se em agonia entre a
solidão e Isaura. Sua cabeça se debatia entre uma culpa cristã de julgamento da
aparência de Isaura e a adequação social aos padrões que seus amigos iriam
pensar; a ausência total de atração sexual e a esperança de preencher os
espaços naquele buraco sem sol que havia virado sua casa.
Alguns dias se passaram, e ele não procurou Isaura.
Na tarde de uma quarta-feira, uma notícia lhe deu um susto.
Seu Salomão, vizinho de frente e amigo, havia morrido há uma semana e ninguém
sabia. Ele havia percebido a ausência do amigo, mas não deu grande importância
por achar que ele poderia estar viajando ou muito ocupado. Uma vizinha,
querendo reclamar do cheiro que infestava a casa dela proveniente do apartamento
ao lado foi quem reclamou ao síndico. Os bombeiros vieram, arrombaram a porta
por não haver sinal de vida.
Seu Salomão era muito querido por todos no bairro e todos
compareceram ao seu velório. Inclusive Isaura e seus pais.
No caminhar triste do sepultamento, a ideia de seu amigo
deitado no chão da sala apodrecendo sozinho o transtornava seu ser. Mais do que
a perda de seu amigo, o medo carcomia suas vísceras e aplacavam sua alma.
Estava ali o símbolo de tudo que mais o apavorava. Ele olhou pra trás e a viu.
Aquele ser desconjuntado e feio poderia ser a solução de seus problemas.
Ao final do sepultamento, foi atrás de Isaura convidar para
um café. Deixaram os pais dela em casa e, mais uma vez, desfrutaram de uma
tarde de agradável companhia com conversas animadas e tímidas tentativas de
toques entre mãos. Inácio imaginava que se ele fosse aos poucos se acostumaria
e encontraria prazer em se entregar àquela mulher. E deu certo. Em certo
momento, a coragem lhe encheu e veio um beijo receoso e trêmulo, mas para seu
espanto, nada ruim. Abraçou-a com alívio e esperança. Mais abraços e mais
beijos depois, e seu corpo estava tomado por um desejo animal em lhe arrancar
as roupas e possui seu corpo com a boca, língua e pênis. Armado de tesão como
há muitos anos não sentia, quis a levar para casa com urgência.
Isaura o avisou de sua pouca experiência, já que apenas
tinha transado com apenas um homem. Ela explicou para ele que seu primeiro
relacionamento durou 1 ano e três meses. Ao perder sua virgindade com muita dor
e incômodo, seu namorado terminou alegando não conseguir suprir as necessidades
e superar aquela dificuldade. Desde então, Isaura baniu esse desejo por achar
que não valia a pena a dor e sofrimento pela qual ela havia passado.
Inácio a acalmou e se sentiu uma tranqüilidade de encontrar
aquela mulher em sua vida. Para ele, era como a vida houvesse os preparado para
aquele momento. Ele acabou convencendo-a a subir para sua casa.
Ele abriu a porta da sala. Um vento entrou com raios de sol.
Aquele ar de abandono parecia dissolver aos passos de Isaura na madeira que
rangia. Eles caminharam abraçados até o quarto, sorrindo e trocando carícias.
Chegando ao quarto, ela pediu para deixar a penumbra por
ainda se sentir tímida. Ele obedeceu. Tirou a blusa dela e chupou o seio até o
gemido revelar a entrega de seu corpo. Tiraram as roupas e se beijaram
longamente. Ele se encaixou entre as pernas dela. Ela sentia o peso do seu
corpo gingando sob ela. E, de repente, ela perguntou:
-Você não vai entrar?
-Já estou...
-Não sinto nada.
-Como assim?
Ele levantou, sentou à beira da cama e se deu conta da
completa falta de explicação das outras mulheres. Olhou para seu pênis. Ereto,
media dois dedos apenas de suas mãos. Colocou as mãos em sua cabeça desesperado
pensando que nunca seria homem algum para qualquer mulher. Debulhou em
lágrimas, soluçando e bradando sua dor da castração.
Isaura o abraçou e o desejou como a nenhum outro homem ela
havia desejado ou jamais desejaria daí pra frente. E eles se olharam e ela
disse:
-Agora você foi feito pra mim! Agora eu sei que você é
meu e de mais ninguém.
ades vizinhas e
havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O
trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.
Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais,
políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se
rendiam a seu talento.
Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro,
cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a
expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.
- Vire de costas, minha Princesa...
Princesa
Princesa
Era uma vez uma princesa. Só que ela não era princesa, mas
ela não sabia disso. Ela achava que em algum momento na vida, alguém iria
descobrir o tanto que ela era especial de alguma forma.
Ela era filha do meio de sete irmãos. A mais velha, Diana,
era a mais trabalhadeira, depois vinha Eliana, uma morena maravilhosa de olhos
verdes e corpo escultural, na sequência Carlos, estudante de medicina exemplar.
Com um ano a menos que ela, tinha Valquíria, que enchia a casa de amigos,
sempre em festas e badalo. Lírio desafiava todos os limites esportivos e sempre
saía campeão, e finalmente Cora com habilidades diversas do bordado, cozinha,
escrita, atuação entre outros.
Ela amava toda aquela bagunça. Os irmãos sempre com
novidades e grandes planos não deixavam quieta a casa de seus pais orgulhosos.
Ela se esforçava na escola, entre seus colegas, em todas as atividades que a
cercavam. Ela sempre saía junto com a maioria, no meio do miolo. Chegava em casa
um tanto desanimada e decepcionada e não contava nada a ninguém. Continuava a
ouvir os êxitos de seus irmãos com sincera admiração. Nesses momentos, sentia
falta de o pai a sentar no colo para um consolo. Ele sempre se esquivava com
qualquer motivo inexplicável.
Um dia, ela acordou cedo, desceu para sala e percebeu que
sua mãe conversava com uma vizinha amiga:
- ...pois é, Iara, todos meus filhos, como você bem disse,
são um sucesso em tudo que fazem, menos ela – falando baixinho como se para não
espalhar- não sei o que deu errado ali. Demos a mesma educação, mesmo
carinho... tudo igual, e ela parece não saber o que fazer da própria vida. Parece
preguiçosa ou sei lá.... É tão diferente dos outros...
A sensação de desapontamento que ela sentia que causara na
mãe a transtornou de tal forma que ela correu para cama aos prantos em total
desespero. Passou o dia na cama, sem coragem de olhar na cara de quem quer que
seja. Ficou lá sem comer, sem beber água... e ninguém foi chamá-la. Acabou por
dormir de cansaço do choro.
No outro dia, ao sair para a escola, decidiu que algo iria
mudar. Já com 14 anos, poderia transformar aquela realidade. E ela mudaria sem
importar o que fosse necessário. Qualquer coisa que a fizesse sair daquele
ostracismo valeria a pena. Não era mais aceitável que ela fosse tão
decepcionante para os pais e para si mesmo.
Naquele dia, ela não acertou nenhuma das perguntas que os
professores fizeram na sala, ninguém achou graça de nenhuma das piadas ou dos
comentários inteligentes que ela fazia, ela não foi chamada para participar de
nenhum esporte, nada. Completamente desanimada, ela foi para o final da quadra
e sentou pensando o que poderia fazer.
De longe, ela viu Ramon vindo em direção a ela. O que ele
queria, ela não poderia saber. Ele nunca havia sequer olhado para ela. Não que
ele tivesse qualquer coisa de especial, era só mais um garoto da escola, sem a
menor importância. Ele sentou do lado dela. E eles começaram uma conversa
trivial, coisas da escola sem qualquer importância. Ele perguntava, ela
respondia até que em certo momento o cabelo dela caiu sobre os olhos e ele tirou passando a
mão por sua testa. Ela sentiu um tremor por dentro. Eles se beijaram longamente, ele tirou a blusa
dela, a acariciou carinhosamente. Enquanto ele beijava seu pescoço, ela pediu:
- Me chame de princesa!
E ele atendeu sussurrando em seu ouvido:
- Minha princesa!
Naquele momento, ela se sentiu a mais especial de todas as
mulheres. A sensação era tão lisonjeira que ela não sentia dor, somente o
fervor lhe cobria do meio das coxas até seu rosto. Então com muito cuidado ele lhe tirou a
virgindade.
Eles se levantaram, colocaram as roupas e foram para casa.
Ela chegou em casa ainda zonza e mole de prazer. Sorrindo,
respondeu à mãe a pergunta corriqueira “como foi seu dia?”:
- Tudo bem.
Subiu para seu quarto e desfrutou daquela sensação por toda
noite. No outro dia, não podia esperar a voltar para escola. Chegando lá,
encontrou Ramon. Eles conversaram um pouco, mas ela nada sentiu por ele.
Percebeu que o que aconteceu não fazia conexão com nenhum sentimento mais
profundo.
Uma aula antes do intervalo, ela se pegou olhando entre as
pernas de alguns garotos e se masturbando. Wander, um garoto com quem ela fazia
muitos trabalhos de escola, percebeu seus olhares. Olhou para ela, sorriu
sorrateiramente, ela devolveu o sorriso e os dois fugiram para o banheiro.
Wander era mais velho. Tinha entrado na turma dela por ter
sido reprovado dois anos seguidos. E ela percebeu que com ele, ela podia
aprender tudo sobre o assunto. A partir daí, eles passaram a se encontrar
escondidos antes e depois da aula e nos intervalos. Wander indicava didaticamente todos os caminhos para
o orgasmo. Ele ensinava a usar a boca, o dedo, os grandes lábios, até mesmo os
gemidos e frases provocativas. A exploração sexual de seu corpo gerava êxtase e
satisfação plena. Quanto mais ela explorava, mais se satisfazia, e mais queria
explorar. Esse ciclo vicioso e viciante os colocaram em perigo por sempre
estarem em local público. Todos os locais da escola eram possíveis. Por várias
vezes, quase foram pegos. Mas sempre dava um jeito de se safarem.
Até que um dia, ao fechar da escola, dentro da secretaria,
embaixo do balcão de atendimento, a faxineira os achou. Imediatamente, o
diretor foi chamado e consequentemente os pais de ambos.
Ninguém acreditava que ela fazia parte daquilo. Nunca
aparentou ser uma menina fora do eixo. Bem comportada, dentro das médias,
quieta e quase imperceptível entre os outros alunos, ela nunca havia
participado de nenhuma atividade ilegal ou proibida. Mas isto era inconcebível.
Foi expulsa.
Ao chegar em casa, os irmãos calados rejeitaram com asco
aquela invasora familiar. A mãe foi para o quarto a chorar se culpando sem
saber onde estava a culpa. O pai a chamou para a cozinha e disse:
- Não posso te aceitar nessa família. Não após tamanha
vergonha, esta casa não pode mais te abrigar. Você não é mais minha filha. Vai,
pega suas coisas e some da minha frente.
Calmamente, ela pegou suas roupas, um dinheiro guardado no
porta-jóias e saiu sem despedir de ninguém.
Em frente a escola, havia uma senhora mal falada alugando um quarto. E
lá ela foi. Dona Jurema era uma senhora gorda que vivia de uma pensão de seu
marido morto de causas enigmáticas. Ela explicou a dona Jurema todo o acontecido
e disse que não sabia fazer mais nada além de sexo. E era a única coisa em que
ela era realmente boa. Dona Jurema admirada com sua honestidade permitiu o
trabalho com trinta por cento para a casa. Soltaram o boato, já que não podia
levantar uma placa.
No final da semana, a fama chegava a cidades vizinhas e
havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O
trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.
Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais,
políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se
rendiam a seu talento.
Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro,
cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a
expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.
- Vire de costas, minha Princesa...
Escolha de destino
Escolha de destino
A vida de Nara era muito simples, ordinária mesmo. Ela cresceu em uma família de classe média
com os pais, dois irmãos e uma irmã. A segunda da casa se casou assim que
terminou o normal e começou a ter os filhos cedo. Com cinco anos de casada, já estava com os
três filhos. Dois meninos e uma menina.
Osvaldo, seu marido, era funcionário público e vivia uma
rotina quase sacerdotal. Saía às sete e meia, voltava às sete de segunda a
quinta. Na quinta, chegava ás dez com a devida permissão da esposa para
espairecer com os amigos, já que ele também era filho de Deus. E vez ou outra, ia aos sábados á tarde ver
jogos de futebol com os amigos. Tudo com a devida permissão de sua esposa. Como
é de se esperar de um bom esposo, nunca faltava nada dentro de casa, e em
alguns casos raros, ele trazia para ela um
chamego, uma lembrança como um conjunto de roupas de cama, uma toalha de
mesa rendada e até mesmo um conjunto de panelas novas. Ela se sentia envaidecida
pelo carinho daquele homem que era, em geral, tão seco.
Ela se sentia protegida e até feliz naquele cenário. Não que
ela havia planejado nada daquilo, mas as coisas transcorriam como natural:
nascer, crescer, casar, procriar. Terminou o ensino médio namorando o amigo de
seu irmão mais velho, quem convivia em sua casa desde sempre. Osvaldo a
conhecia de criança, e assim que chegou no último ano da faculdade de direito,
ele decidiu que ao final se casaria com Nara. Eles não viam qualquer motivo
para um namoro mais longo, já que se conheciam há tantos anos, então noivaram
na mesma semana. Foi apenas o tempo para fazer-lhe o enxoval mínimo e casar.
Ao longo do casamento, Osvaldo provinha todas as demandas
que ela esperava de um marido, ou que lhe ensinaram a esperar. Estabilidade
financeira, assistência familiar, dignidade social, enfim, o pacote. Às vezes,
Nara se pegava pensando nos casos apaixonados que sua irmã e primas a contavam
secretamente, mas reprimia rapidamente considerando tudo que ela tinha. Qual
era a vantagem de ter um homem que lhe beijaria na boca, se ele não teria a
firmeza de um pai com os filhos para pô-los para estudar com disciplina e
rigidez? Para que ter um marido que a tocasse com paixão se não tivesse tudo do
bom e do melhor à sua disposição?
Então ela se resignava com o que a vida lhe deu. João, estudante de engenharia, com casamento
marcado para o ano seguinte era o mais velho. Pedro, calouro na faculdade de
medicina, sério e dedicado aos estudos, era o segundo. E Janaína era caçula,
que estudava para Farmácia. Três pérolas que ela agradecia eternamente a
Osvaldo.
Mais uma sexta-feira, mais uma lavagem de roupas. Nara saía
recolhendo todas as roupas remotamente sujas. Muitas vezes, vasculhava em
pilhas de roupas largadas dentro dos armários.
Começou pelo próprio quarto, mas não viu as roupas que Osvaldo usou na
noite anterior. Como era um homem muito organizado, ela esperava achá-las no
cesto na área de serviço. Às vezes, Osvaldo se atrasava um pouco, então se
preparava para dormir do lado de fora do quarto para não a aborrecê-la.
Normalmente no quarto de João. Ela fingia que nada via para não criar caso. Não
valia a pena. Ainda recordou ouvir vozes de discussão e preferiu ignorar. João
andava nervoso com a faculdade e o casamento por vir. Foi para o quarto dele
pensando em todos os conselhos que o pai sempre o dava sobre profissão,
casamento, e mais uma vez, se sentiu grata por ter Osvaldo como marido. O filho
não havia herdado a personalidade ordeira e sistemática do pai. Era roupa para
todos os lados; uma calça social sobre uma camiseta do futebol, com meias
enroladas em um casaco e shorts em cima das roupas de Osvaldo. O que essas
roupas faziam ali? Eram as roupas que ele usou na noite anterior, a mesma calça
de linho e a camisa branca. Ao esticar as roupas, ela pôde ver as marcas
vermelhas de batom, que ele nunca permitiu que ela usasse. Ela rezou
ardentemente que fosse catchup ou mesmo sangue. Mas não podia negar para si
mesma, era batom por várias partes daquela camisa que ela havia lavado e
passado há dois atrás.
Ela não acreditava naquilo. Nem queria acreditar ou ver.
Sentindo o chão esvair sob seus pés acabou por sentar no canto entre a porta e
o armário. A luz da manhã caiu quase imediatamente no pôr-do-sol. Em choque,
acabou percebendo que anoitecia e ela precisava se levantar dali e decidir o
que iria fazer. Seguiu com o dia sem que ninguém percebesse nada. Ao dormir,
Osvaldo avisou a esposa que iria encontrar com os amigos no dia seguinte.
Ela precisava segui-lo para confirmar o encontro com os
amigos. Então assim que ele saiu, logo depois do almoço, ela foi atrás. Pegou
um táxi, e viu quando, há dois bairros depois, uma mulher nova e voluptuosa
abriu a porta de uma casa de dois andares e o beijou na boca longamente, o
envolvendo nos braços e uma das pernas em sua cintura. Ela saiu do táxi. Ficou
do outro lado da rua escondida por uma árvore, rezando para que ele saísse o
mais rápido e tudo aquilo fosse um terrível pesadelo.
Duas horas depois, resignada, ela foi para casa. Entrou e
foi direto para a cozinha, guardar a comida do almoço e lavar as vasilhas. O
passar o tempo se tornou uma tortura. Por mais que ela procurava as coisas de
casa para fazer, o que ela fazia normalmente, nada saía direito. Maria percebeu
o copo quebrado, a mão queimada do ferro e o banheiro sendo esquecido de lavar.
Nara disfarçou e nada disse.
Quando ele chegou, ela percebeu um riso que havia sido
ignorado em outros momentos. Contentamento da rotina tinha sido a desculpa que
ela havia dado àquele sorriso, que agora se tornava o escárnio de sua possível
infelicidade.
Passado o domingo, Nara decidiu que tinha que fazer alguma
coisa. Ela podia não ter a vida dos sonhos, mas a vida era dela e de mais
ninguém. Então após todos saírem para trabalho e escolas, ela trocou de roupa e
saiu para a loja mais requintada da cidade. Após uma olhada rápida, comprou o
vestido mais bonito, vermelho de seda, que ela podia achar na cidade. Pediu
para que a vendedora fizesse o embrulho especial para presente. Pegou o táxi e
foi para a casa de dois andares. A morena voluptuosa abriu a porta, e Nara viu
como ela é bonita. A moça perguntou:
- Posso te ajudar?
-Você não me conhece pessoalmente. Meu nome é Nara. É o meu
marido quem você tem tomado conta. Vim lhe agradecer, mas não precisa mais. Eu
cuido dele de agora pra frente.
Deu-lhe o presente e saiu.
Foi pra casa, se aprontou como nunca antes havia se
arrumado. Banhou, maquiou, perfumou. Fez
de sua figura uma linda mulher, assumindo seus desejos e condição. Quando ele chegou, ela o esperava na cama.
Estranhando, ele se deitou para nunca mais procurar outra cama.
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