sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Salutem

E de tudo o que ficou foi a breve brisa que leva consigo a imortalidade. Esse sopro que nos bate a cara e desmonta nossa ilusão de que tudo vai dar certo. O que não foi o que aconteceu. Eu te conto o que aconteceu.
Na verdade, eu nos conto porque também tento entender o que me recompõe nesse retorno. Após tantos anos, revendo tantas memórias questiono minha sanidade. Desde a morte de Otávio, os acontecimentos vêm destruindo todos meus pilares e convicções. Um turbilhão sobrevoando minha vida que parece já não me pertencer.
Na primeira semana que estava de volta a Moraí, uma esperança de que tudo havia mudado tomou conta de mim. Quase me cegava essa ansiedade de ver o novo em qualquer lugar. As ruas estavam no mesmo lugar com lojas diferentes. Onde antes era a farmácia do seu  Alaor, que sempre dava balas no dia de São Cosme e Damião, hoje se transformara em uma loja de vestidos de marca. Onde era a oficina do Cléber com um cachorro preto imenso de vigia, agora se via um galpão alto improvisado como restaurante de comida estado-unidense. Minha cidade não existia mais. Eu tinha que me acostumar a desfazer daquilo que habitava somente minha mente.
Tentei tomar uma atitude de psicologia inversa, olhando apenas para o que nunca havia visto antes. Toda vez que me deparava com algo minimamente familiar, passava por cima com pensamentos inquietantemente contraditórios á minha personalidade. Comecei a ignorar os abusos verbais de minha mãe, que tentava insistentemente destruir com todas as minhas escolhas. Meu posicionamento era contrapô-la com frases positivas sobre o mesmo assunto. “-Você só está sozinha porque insistiu nessa loucura de não ter filhos.” “- Não estou sozinha, mamãe, estou com você.” Ela arregalava os olhos, procurava em sua mente uma tréplica não apenas para aquela resposta, mas também uma réplica para aquele posicionamento que destruía com o status quo que estruturava a relação como ela entendia existir. Sem perder mais do que um minuto, soltava “-Viver com uma velha não vai durar muito sua companhia.” Aos poucos e com uma imensa bagagem de paciência, fui tentando conduzir para uma convivência menos perturbadora.
Depois de conseguir um trabalho de diagramação em uma empresa de plotagem, conheci uma prima de uma amiga minha de infância, Carol, que me apresentou a Rosana que era amiga de uma prima minha que cresci junta. Incrível como o mundo é pequeno. Não me lembrava de nenhuma das duas, mas ambas traziam momentos vívidos em suas lembranças de momentos comigo do passado. Mas eu já superava o mais rápido possível essa conversa antes que tocassem em mim qualquer familiaridade.
Comecei a não retornar a bares  e restaurantes que havia ido antes, mudar os caminhos e as formas de ir ao trabalho, dar bons dias em línguas diversas, enfim, tudo o mais novo possível naquela velha cidade. Um certo anseio por qualquer novidade dentro da minha rotina começou a tornar uma obsessão. Internet, dicionários, revistas, tudo isso já não me satisfazia. As pessoas já não me faziam sentido. Parei de conversar. Comecei a conversar com os cachorros nas ruas. Ficava horas trocando olhares e uivos. Me cansei. Busquei os gatos, os ratos, as baratas... tudo naquela cidade já era velho e usado.
Minha chefe me pediu para conversar. Sentei em sua sala. Olhei para um lado, para outro. Três por quatro comum, uma parede com quadro, uma lisa, uma janela e porta, um armário. Uma mesa com papéis, um computador, uma caneta na mão e um discurso chato. Pedi demissão! Conversar nada. Ela queria me dar sermão de como eu estava me comportando. Falava para mim que estava preocupada porque eu não conversava com ninguém e vestia roupas que não fazia o menor sentido. Como se houvesse sentido uma calcinha dentro ou fora da calça. Aquilo já estava ficando velho mesmo. Um mês de trabalho no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, já deu.
Comecei a andar pela cidade. Não aquelas ruas que eu já conhecia. Procurava as ruas que eu nunca tinha ido antes. Pensava quantas pessoas haviam morrido naquele lugar. Onde teria fantasma naquele lugar assombrado. E talvez se eu me comunicasse com eles, a conversa poderia ser outra. Cansei. Sentei. Dormi.
Acordei em uma cama que não era minha. Vi minha mãe e minha irmã conversando com uma pessoa longe e me sentia pesada. Dormi novamente. Acordei com uma pessoa arrumando as coisas ao meu redor. Perguntei onde estava. A moça me respondeu que iria buscar o médico.  Ainda imaginei que se ela estava doente, era bom procurar um médico mesmo. Mas ainda não havia me respondido. Sentei na cama sentindo grogue. O homem de branco chegou,me chamou pelo nome e disse que tudo ia ficar bem, era só eu ficar calma. Eu achei bom. Naquele ritmo frenético do dia-a-dia, todo mundo apavorado, alguém me disse que tudo ia ficar bem. Sorri e ele sorriu de volta. Comunicação perfeita. Vamos tomar sol? – disse a moça que arrumava antes. Ah, claro!! Sol!

Um pátio imenso cheio de pessoas diferentes, fazendo coisas diferentes, falando coisas que não se entendiam e o sol – como é bom estar no paraíso!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Fé e a ciência do futebol

Fé e a ciência do futebol
Nasci menina. E em um sistema conservador, não era esperado ou  “permitido” minha participação em assuntos futebolísticos. Ao longo dos anos, sendo meu irmão mais próximo em idade do que minhas irmãs e meu pai mais próximo em discussões do intelecto, aproximei-me do assunto, que para muitas meninas da minha geração e cidade, um tabu.
Quando se deu o campeonato brasileiro de 99, vi minha paixão pelo Galo eclodir, na esperança geral da capital mineira de levar o título. O assunto não era mais tabu e aos poucos fui percebendo os lances, as genialidades, as imbecilidades e erros. Sim, erros. O futebol é feito prioritariamente de humanos. E erram por todos os lados. E mais humano do que isso, amam profundamente, apaixonadamente, loucamente por todos os lados
É claro que, sendo uma professora de língua estrangeira e entendendo a lingüística como ciência, tentei por diversas vezes racionalizar aquilo que me tomava do coração ao resto do corpo, aniquilando inclusive o pensamento. Há pouco tempo fui a uma palestra de neurociência, e o professor explicou com vasto conhecimento e detalhes que somos seres principalmente emocionais. Ele disse que o pensamento chega após a propagação das emoções, isto em termos vagos pois esse não é o assunto em questão.
O assunto em questão é o  Mauro Cézar Pereira no último Linha de Passe e São Victor.
Veja bem: eu sou mineira, atleticana. Como não ser devota de São Victor do Horto? Portanto na hora do pênalti, eu juntei minhas mãos, sofrendo em fé, cantei que Victor iria pegar. Eu tenho absoluta clareza de que contribui com aquele momento, mandando uma vibração atleticana para aquele que nos deu o maior livramento de todos, a ressurreição de que podemos ser campeões.
Pois bem! Ouvi com atenção os números e relatos do excelente jornalista no Linha de Passe na última segunda-feira, 14/09. Extrai de mim, toda minha paixão e dei voz ao meu lado científico e sereno. Compreendi o que foram os resultados de estudo aplicado como conseqüência de ações em prol de vencer uma partida, e até um campeonato. Tentei relevar as alegrias que o Pratto  me deu neste curto período de atuação, sem nem mesmo reclamar de adaptação ao futebol brasileiro, pensando que nos números, talvez ele poderia estar em pior fase que o Love.

Após considerar os pontos de fé versus os pontos científicos, fiquei com a premissa maior inicial: futebol é humano. A ciência não. A ciência tem que estar à disposição da humanidade. A humanidade é imprevisível. Agradeço o debate que me trouxe o jornalista, mas escolho o rumo da humanidade no futebol. Escolho porque eu acredito. E porque não pode ser baseado em números, porque não é frio é que o futebol é tão emocionante. Vamos ser humanos!
O antes, o durante e o depois: placas tectônicas!

Não há motivo para abrir mais um debate amoroso ou de relacionamentos. Mas há um motivo para abrir meu coração: a passagem de uma época. Quando pensamos na possibilidade de findar com sonhos e enfrentar a vida, enxergá-la como ela é, independente de Nelson Rodrigues, a pior parte é ver desfalecer a frase “viveram felizes para sempre”, porque nessa vida as quatro palavras mágicas são de pura fantasia e ilusão. Ta, podemos viver. Sim, acredito em felicidade. O “para sempre” é um incômodo. Quando lemos estas duas palavras, estamos indo contra várias realidades: a norte, o fim, a mudança de rumos, a mudança de ideias, personalidades, ambições, caráter entre outras coisinhas que esquecemos ao nos deparar com a palavra FELIZ! Com sua sonoridade tangível e morfologia esteticamente bem pensada, não pensamos em mais nada.

            No começo, tudo é muito detalhes. Como pode uma única coisa parecer plural? Os toques da mão, a saliva doce, a passagem da mão no rosto, envolvimento da cintura, a palavra certa na hora certa, justamente aquilo que eu queria ouvir... Como ele pode perceber? Como ele descobriu que eu amo isso? Porque ele disse aquilo? Hum, que pegada diferente... olho no olho... respiração ofegante... meu nome... o seu... Nós.  Tudo junto é o tudo.  Será que o plural é o que torna o tudo? Não importa: o que importa é o aqui e o agora.  O que importa é ser feliz. Já passei pelos outros seis anões para saber que o príncipe não vem e o que eu quero está ali no meu banheiro escovando os dentes, tentando não fazer barulhos desconcertantes. Até fecha a porta e abaixa o assento da privada. Mais uma saída, mais algumas descobertas. Só nós dois. Todos os gostos, vontades e sonhos são compatíveis àquilo que eu pensei viver.
            O pacote. Uma prima minha já namorou um cara que, olhando de fora era um homem ideal, quando ainda se acredita nisso. Ele era lindo, estável, não exageradamente sensível, forte, íntegro, seguro de si e do que queria, cordial, compreensivo, libertador, moderadamente vaidoso, profundo sem ser chato, às vezes chato sem ser irritante, brincalhão sem ser idiota, bom enfim: O PACOTE. Ninguém entendeu quando ela quis se separar dele. As pessoas se perguntavam, será que ele bebe, será que ela é lésbica, será que ele bate, será que ela não quer ser feliz? Então eu fui até ela, e perguntei. Porque nessa hora ninguém te pergunta, todos te dão a resposta para sua vida. E ela me disse: “Natália, como se vive com alguém perfeito sem a compatibilidade dessa perfeição? Eu não vivia, eu me cobrava.” Pois bem, aí está. Até os perfeitos, em sua perfeição, tem seus defeitos. E chega a hora de descobrir a falha, aquilo que pode fazer você mudar de opinião sobre todo o relacionamento. Quais as condições para sobreviver a este relacionamento, ou o desafio desse homem? Às vezes, é a briga pelo controle remoto, política, números de filhos, o passado, o papel higiênico saindo por baixo ou por cima, futebol (isso pode acontecer, acreditem em mim), música, filme, cigarros, ou outros vícios... Tudo isso pode ser.  Mas a gente suporta no durante. O durante é fase que tudo acontece para perceber o outro. No durante, o sexo é o desenvolvimento que une o porque você está ali, a promessa,  ao se você quer continuar ali, o relacionamento em si. Até porque, entenda, as preliminares para as mulheres são tão importantes quanto o aconchego final, e ambos, na maioria dos casos, proporcionam um real bom durante. O durante é quando você busca a ligação para vocês estarem juntos. É praticamente a liga para o bolo dar certo. Porque agora é isso que você quer: que dê certo. Nesta fase, é quando você pensa que não vai precisar passar por isso mais, nem acordar no meio da noite com medo de ficar sozinha o resto da sua vida porque pode dar certo. Enfrentar as vicissitudes da vida fica tranqüilo nessa época. Natais, aniversários, festividades em famílias, tudo vai ser mais fácil com seu cúmplice. Cumplicidade é o que queremos.  Deveríamos fazer uma campanha em prol da cumplicidade. Devemos também ter muito cuidado nessa fase, e ouvirmos o que ele quer, tentar descobrir o que o completa. Porque a quantidade de farinha pode fazer o bolo desandar. E desanda mesmo.
Seja na forma que for, o depois quase nunca é como esperamos. Mas há uma forma pior do que as outras. Isso acontece quando você não foi bem no durante ou no antes, não se sabe muito bem quando, onde, como ou o que.  Só se sabe que ele não te quer mais. Abandonada, você procura andar com sua vida para frente,  e ela parece estancada.  O que andava tão bem era apenas a sua impressão. Eu, pelo menos, passo horas da minha vida procurando um caminho, uma forma de voltar àqueles momentos, mais um minuto feliz, retomar o caminho que estava tão bem, tentando achar uma resposta. E aí, você descobre que tudo era muita lava e pouco concreto, e agora são cinzas. O que você não percebeu foram as placas tectônicas que te afastavam dele. Porque as placas se movem tão lentamente que você não percebe sob seus pés. E por mais que você queira se aproximar como amiga, enfrentar o medo do antes e do durante, as placas tectônicas continuam te afastando dele. Aquele lugar que foi tão de nós dois nos afasta ainda mais porque você percebe que ele não está interessado em você mais e acabou. Não existe mais o durante ou o antes porque acabou, e a única coisa que sobrou foi você e seu coração quebrado em estilhaços. Mexicano. Essa fase é tão terrível que tem até nacionalidade. E tem também hino próprio: o fado. Até porque você está tão sozinho, que você não sabe mais o que fazer com sua mente e tudo o que passa por ela. Enfrentar o futuro é aterrorizante por causa de algumas palavras como: sozinho e novo risco. Olhar o passado é masoquismo, ele continua lá e você está aqui. Parece que nenhum amigo te entende porque todos eles racionalizam o que não dá para racionalizar: você ainda gosta dele. Ele não gosta de você. O pote de sorvete que ele deixou para trás acabou, ele está com outra, e você está sozinha.
Quero ter outro fim para isso tudo, mas é melhor eu me dar um tempo e começar de novo. Neste momento, só há um homem que pode traduzir essa sensação, que é Chico Buarque de Holanda. Faço os dele os meus versos: “Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta pro desfecho da festa. Por favor. Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’àgua.”

Folhas urbanas, memórias em papéis

Folhas urbanas, memórias em papéis

Era uma família de 14. A mãe viúva, com seus seis filhos. O pai viúvo, com seus seis filhos. E Emanuel Chagas Santiago. Nasceu dessa união de família em uma casa pequena, onde ainda dividia o quarto com suas irmãs para que elas pudessem tomar conta dele na única hora que a mãe dormia. Eram sete mulheres, cinco homens, o pai, a mãe e Emanuel. Franzino que nem ele só, todos achavam estranho sua orelha desproporcional, seu olhar arregalado e a boca sempre aberta. Cresceu no meio daquele tanto de gente, sempre os mais velhos implicando com ele: “Emanuel, quantos filhos tem sua mãe?” “Sete.”, respondia ele. “Emanuel, quantos filhos tem seu pai?” “Sete.”. E aí, vinha o deboche: “Então Emanuel, vocês são quatorze?”. “Não, somos treze.” E todos riam da criança que não conseguia se explicar.
Com o passar do tempo, sua timidez se aguçou de tal forma que, quando da morte do pai aos seus nove anos, Emanuel já não conversava com ninguém além de sua mãe. Dona Palma, professora formada, costureira de mão cheia, parteira e curandeira, entre outros atributos de boa dona de casa, teve de desenvolver uma fórmula para sustentar sozinha seus filhos e enteados. Educava as crianças dentro de casa para não ter mais gastos com escola, espichava até não poder mais a pensão de dois maridos falecidos, costurava vestidos para as moças e madames e distribuía favores pela vila afora fazendo partos e curando males em regiões aonde médicos e enfermeiros não chegavam. Sempre Emanuel na barra de sua saia. Emanuel não desgrudava de sua mãe, e todos achavam que ele tinha um problema sem solução. Achavam estranha sua face um tanto destorcida, sua forma de ignorar qualquer um que estivesse à sua volta, não respondia, não olhava nos olhos de ninguém, ficava a balançar a cabeça em diagonal de cima para baixo e a boca sempre aberta com o queixo caído e o beiço inferior avantajado.
Agitado, sem bulir com ninguém, chamava atenção por seus repentinos descontroles de gritos e tremores de mãos, quase se batendo no rosto. A mãe dizia: “Emanuel é meu anjo, não bula com ele, senão se verá comigo.” E assim foi crescendo grudado à mãe.
            Aos dezesseis anos, Emanuel perdeu a mãe. Todos ficaram preocupados com o futuro daquele jovem. Não por condições de moradia, pois ao ficar viúva pela segunda vez, o governo concedeu à sua mãe o direito à casa própria. Muito mais pela solidão em si. A primeira providência a ser tomada era como contar a Emanuel do ocorrido. Chamaram então o filho do prefeito, primo de Emanuel, que era médico para conversar com ele. Doutor Eloízio, acostumado com este tipo de tarefa, explicou várias vezes de inúmeras formas diferentes sobre o que era morte e o que havia acontecido com a mãe. Após todas as tentativas, já exaurido, o primo lhe perguntara: “Emanuel, você entendeu?” Emanuel lhe pisca em sinal afirmativo. Intrigado, o médico questiona: “Mas você não vai chorar? É a sua mãe.” Após muitos anos de silêncio, ele soltou uma frase: “Chorar agora, não, agora ela não sofre mais.” Assim como o médico, toda a cidade ficou comovida com o entendimento daquele jovem que ninguém esperava quase nada. Então todos começaram a cuidar de Emanuel. A cidade se revezava dando-lhe alimento e roupa. Ele comia bem, mas não usava as roupas que lhe eram dadas.
            Após um mês da morte da mãe, Emanuel, sem qualquer explicação, começou a varrer a cidade. Começava de manhã e só parava no final da cidade no começo da noite. Todos os dias. Pequenas paradas para comer quando alguém lhe dava comida, e seguia em frente. Produzia suas próprias roupas de jornal e cola. Uma roupa diferente por dia para varrer a cidade. Um dia a mulher do prefeito o viu parado sentado ao meio fio, lendo um catálogo telefônico. Ela começou a lhe trazer um livro por dia, e ele os devorava em poucas horas e voltava a varrer. Um mês, uma média de trinta livros lidos. Ele não aceitava livros repetidos. Às vezes, davam o mesmo livro com uma nova capa, não adiantava, ele não aceitava. Começava a ler, jogava o livro fora e voltava a varrer. A cidade desenvolveu tal cuidado com aquela entidade municipal que, quando viajavam para cidades maiores como Governador Valadares, Ipatinga, Caratinga ou até mesmo Belo Horizonte, todos traziam livros para Emanuel. Inúmeros livros, difíceis ou fáceis, Emanuel os adorava.

            Aos trinta e dois anos, Emanuel morreu dormindo. Sem necessidade de uma autópsia detalhada, a cidade entendeu a morte morrida de Emanuel. Acharam-no no terceiro dia de falecido, após arrombar sua porta por causa de um mal cheiro e um amontoado de folhas pela cidade. Aberta a porta de sua casa, havia uma imensa quantidade de livros, um colchão e Emanuel sobre ele. Ao retirar o corpo, levantaram o colchão e descobriram inúmeros contra-cheques debaixo do colchão. Emanuel nunca havia parado de receber o dinheiro da pensão de sua mãe, mas também nunca os havia descontado. Guardava-os. Ao ver aquela casa abandonada, todo aquele dinheiro e os livros, o prefeito só podia fazer uma única coisa: abrir uma biblioteca. E assim foi feita em Inhapim a biblioteca Emanuel Chagas Santiago. 

Além do viver

Além do viver

Eu olhava para aquelas linhas atônita como se elas tivessem aparecido de uma hora para outra. O ressecado, a s irregularidades, manchas estavam tão destoante do sentimento juvenil que me invadia naquela manhã. O sol ainda quebrando o céu e a chaleira apitando me tiraram daquele devaneio. Impressionante a transposição mental no tempo.
Ajeitei o chinelo no pé, ouvi o jornal batendo na porta do desleixo do entregador, passei o café, fui até a porta, abri. Um vento inesperado invadiu meu rosto e minha espinha. Era hoje. Fechei os olhos e sonhei por um minuto. Quanto tempo levará até o final do dia? Peguei o jornal, voltei para cozinha. Pus a mesa. Ele veio. Sentou. Pôs o café. Bebeu. Aquele silêncio gritante de infelicidade que nem mais dá bom dia pela banalidade dos anos.
- Você vem almoçar?
-Não sei. Tenho uma reunião no fim da manhã. Acho que não. Te aviso.
-Avisa quando?
-Quando der. Tchau.
Não podia ficar mais nos pensamentos. A vida deveria continuar normalmente até segunda ordem. Limpar cozinha. Atender o telefone.
- Alô... Oi, minha filha... Bom dia!... Ele já saiu.... Sei... Hum-hum... Claro que pode. Avisa sua irmã que você vem, quem sabe ela também não anima. O seu irmão já vai almoçar aqui mesmo...Tudo bem... Vou fazer aquela torta de frango que você adora. ... Tudo bem. ... Deus te abençoe. ... Beijos e até mais tarde.
Coisa pra fazer era o que não me faltava. Por outro lado, vontade não era lá aquelas coisas. Mas tinha que me manter ocupada para não enlouquecer. Limpar a casa, arrumar cozinha, descongelar o frango.
Pontualmente às oito, Marisa vem tomar nosso café.
-Trouxe pão fresco. Bom dia! Tudo bem?
-Tudo bem. Por que pergunta?
-Por que é o que as pessoas educadas fazem, Neusa. É tão absurdo esse abuso que fazem contigo que já perdeu a noção de civilidade?
-Ah, Marisa... não sei porque você insiste nisso...
-Porque gosto de você. Me conta... É hoje?
-Sim... – finalmente abri meu sorriso que havia reprimido para não transparecer minha felicidade desde a semana anterior. Naquela quarta-feira, não acreditei quando, no meio do supermercado, eu vi aquela imagem. De todas as pessoas do meu passado, tinha que encontrar justamente com Lígia. Quase trinta anos sem nos ver e em uma trivialidade de compras para casa, ela volta para minha vida. Aproximei com cuidado, com um plano B... se ela não me reconhecer, finjo procurar por tomates... O coração acelerava, a mão tremia e suava, um gelado tomava conta do meu estômago e espalhava por todo meu ser... até que ela me olhou. Tudo parou. Tudo voltou ao normal. Um normal que não sentia há mais de trinta anos. Ela sorriu. Eu sorri. Esquecemos as compras e fomos tomar um café. No dia seguinte, almoço.
Conversávamos como se o tempo não tivesse nos separado. Eu contava das minhas bobagens de dona de casa, mãe, esposa, pequenas viagens para praia em que mais trabalhava do que me divertia. Ríamos com estórias de meus filhos. Maravilhava-me todos os casos de suas viagens pelo mundo como restauradora. Ela me contava com tantos detalhes que eu conseguia enxergar as obras que nunca vi. A tarde passou como vento. Tinha que voltar para casa. Cícero ia chegar a qualquer momento.
-Eu te levo.
-Tudo bem.
Fomos ainda rindo com paz no coração.
-É aqui. Depois que as crianças casaram, vendemos a casa, e ficamos com esse apartamento. Para nós dois, tá bom.
-Pensei muito em você em Veneza. Ainda me recordo o tanto que você gostava da música do Aznavour.
-Que c’est triste Venise... É triste mesmo?
-Quando não se ama mais? Não sei... sempre amei. Não estive lá sozinha.
-Não?
-Já não disse que pensei muito em você em Veneza...
Minha boca secou. Meu coração parou. Eu não piscava. Eu não mexia. Mas ela se mexeu. Encaixou-me um beijo em perfeita sintonia de minha paixão. Quente, molhado, longo voltando a fazer pulsar os sentimentos mais adormecidos de minha alma. Seus braços me envolviam como uma nuvem flutuante. Os lábios saíram e os olhares entraram em cena aos prantos porque o amor havia nos encontrado. Um amor que nem uma, nem a outra havia pensado em viver. No susto, abri a porta e saí correndo para dentro de casa como uma criança que havia feito coisa errada. Em casa, entrei correndo no banheiro, sentei no chão e chorei. Chorei por ter descoberto o tanto que eu era infeliz.
 -Neusa, Neeeuuusaa... acorda pra me contar...
-Ah, Marisa... nem sei o que te dizer... É tudo tão novo e tão antigo que me embolo toda.
-Calma! O que você precisa manter em mente é o que você quer para sua vida daqui pra frente. Acreditar que você pode e deve ser feliz.  Já fez tudo que podia para seus filhos, seu marido. E agora precisa ser feliz por você. Você tem esse amor reprimido por tanto tempo, todos os desejos que qualquer mulher tem o direito de ter descartado por uma convenção tão velha quanto eu ou você... Absurdo!
-Mas, Marisa... e meus filhos? Eu vou perder o amor deles, o respeito... Eles não entenderão.
-Ninguém conhece o amor aos 10 anos e o reconhece aos 60. É amor! Eles vão entender. Vai ser difícil, eles vão resistir, mas no final eles vão aceitar... Você vai ver... Como vai ser? Como vocês combinaram?
-Marisa... já são  9:30. Preciso fazer almoço e me preparar. Daqui a pouco, Solange chega. Ela vem pra me ajudar e vou começar contando a ela.
O fechar da porta nunca me bateu tão cheia de solidão como dessa vez.
A solidão ultrapassava ausência. Transformava-se em um buraco negro que se abria debaixo dos meus pés. O que dizer? Como traduzir tudo que se passava por mim por tantos anos? Como explicar a responsabilidade de filha, mulher, esposa e mãe? Será que eu mesma entendia?
Cozinhar o frango, fazer a massa da torta... Ocupar-me era a saída mais fácil.
-Oi, mãe. A porta estava destrancada. Você sabia disso?
-Marisa acabou de sair, minha filha.
-Mas não é bom, mãe. Não é seguro. O que você quer que eu faça? Mãe... você está tremendo? O que houve? Você está chorando? O que foi?
-Nada...
-Como nada? Óbvio que é alguma coisa... Senta um pouco, fala comigo. Vou pegar uma água.
Eu olhava Solange. Via seus olhos grandes e curiosos como quando era criança. Nada saía. Nenhuma palavra.  Sua boca mexia, mas eu não escutava nada.  
-Só estou cansada, querida... Comece a fazer a massa. A receita está do lado do filtro. Eu vou deitar um pouco.
No caminho para o quarto, meu estômago contorcia de dores, e o sangue corria gelado pelas veias. A dor de uma faca quente atravessava meu peito e cruzava meu braço, minha vista começava a ficar escurecida...
-Mãe? Mãe?
Minha cabeça bateu no chão e eu já não mexia.
-Alô? Uma ambulância na rua Tolerância, número 624, apartamento 102, por favor? Urgente... Minha mãe... não sei  o que ela tem... caiu... inconsciente...

Abri meus olhos e via uma árvore em um campo verde. Sonho bom. Flutuante. Do lado, estava Solange, Iara e Junior chorando copiosamente. Quis ir até eles. Não conseguia. Continuava a flutuar. Cícero também estava lá. Rígido e seco. Mas abalado. E ao longe, senti a perda da vida ao ver Lígia. Agora entendi o que era não viver.

Pesos, medidas, valores

Pesos, medidas, valores

Ele se chamava Inácio. Era o farmacêutico do bairro. Sempre solícito e querido por todos. Nos seus 45 anos, morava na parte de cima de uma casa deixada por seus pais, deixando para o segundo andar sua farmácia. Vivia ali com o vazio e o silêncio. Uma casa grande de três quartos, cozinha larga, duas salas, dois banheiros... um desperdício, pensava ele. Ele que sonhou, quando mais novo, em se casar e ter vários filhos, via agora o tempo aniquilando seu sonho.
Claro que havia tido namoradas. A primeira ainda na adolescência namorou por 3 anos, noivou por 6 meses e, um dia, sem uma explicação clara, Mônica o deixou. Ainda hoje lembrava seu jeito doce, seus olhos verdes e mãos delicadas. Na faculdade, namorou Luciana. Alta, magra, dona de um sorriso largo e risada calorosa. Por 5 meses, foi feliz. Ao final, ela não sabia se explicar, chorava muito e pedia por seu perdão mas não podia mais ficar com ele. E finalmente resolveu namorar a amiga de uma prima, que há anos insistia nessa tecla. Depois de 1 ano, Rosária sumiu. Não atendia telefone, quando ele ia a sua casa, ela dava um jeito de sair e falava que ligava depois, mas nada. Sem explicação. Ao longo dos anos, eventuais encontros de sexo casual e permanentes idas ao prostíbulo do outro lado da cidade o mantiveram com uma certa paciência.
Eis que naquela semana, uma nova família se mudou para rua do lado. Os pais idosos e a moça. Já não era mocinha. Com 40 anos, Isaura só sabia de cuidar dos pais. Baixinha, com corpo arredondado, os olhos manchados com uma queimadura de infância e alguns problemas de fala.
No meio da madrugada, Seu Camilo, pai de Isaura, teve uma súbita subida de pressão. Indicaram para a moça que chamassem Inácio. E assim se conheceram. No escuro, Inácio não percebeu a figura de Isaura, mas sua dedicação, cuidado e delicadeza o chamaram a atenção. No dia seguinte, ele conseguiu a ver com mais detalhes. A repugnância tomou o seu ser mais do que sua consciência de culpa cristã lhe permitia. Mas seu pavor da solidão o corroia mais. No final da consulta, tomou coragem e a convidou para jantar. Ela, sem saber o que fazer, disse sim.
Saíram para jantar em um pequeno restaurante italiano, quase caseiro, perto dalí. Isaura tinha conhecimento de todo e qualquer assunto. Não de maneira presunçosa, mas desenvolvia bem as discussões, buscando mais e mais o conhecimento que lhe faltava. Alegre e otimista, trazia sempre a doçura de que tudo era possível desde que trabalhássemos para aquilo. Mas era feia! Ele olhava para ela e via como sua fisionomia não trazia um traço agradável.
Ao final, ele a levou até a porta de casa. Ela sorrindo, claramente receptiva e esperançosa por um momento de afeto. Para ele, aquele seria o momento que, normalmente, ele beijaria a moça, não teve coragem. Deu-lhe a mão e um beijo no rosto.
Foi pra casa. Deitou na cama. Revirava-se em agonia entre a solidão e Isaura. Sua cabeça se debatia entre uma culpa cristã de julgamento da aparência de Isaura e a adequação social aos padrões que seus amigos iriam pensar; a ausência total de atração sexual e a esperança de preencher os espaços naquele buraco sem sol que havia virado sua casa.
Alguns dias se passaram, e ele não procurou Isaura.
Na tarde de uma quarta-feira, uma notícia lhe deu um susto. Seu Salomão, vizinho de frente e amigo, havia morrido há uma semana e ninguém sabia. Ele havia percebido a ausência do amigo, mas não deu grande importância por achar que ele poderia estar viajando ou muito ocupado. Uma vizinha, querendo reclamar do cheiro que infestava a casa dela proveniente do apartamento ao lado foi quem reclamou ao síndico. Os bombeiros vieram, arrombaram a porta por não haver sinal de vida.
Seu Salomão era muito querido por todos no bairro e todos compareceram ao seu velório. Inclusive Isaura e seus pais.
No caminhar triste do sepultamento, a ideia de seu amigo deitado no chão da sala apodrecendo sozinho o transtornava seu ser. Mais do que a perda de seu amigo, o medo carcomia suas vísceras e aplacavam sua alma. Estava ali o símbolo de tudo que mais o apavorava. Ele olhou pra trás e a viu. Aquele ser desconjuntado e feio poderia ser a solução de seus problemas.
Ao final do sepultamento, foi atrás de Isaura convidar para um café. Deixaram os pais dela em casa e, mais uma vez, desfrutaram de uma tarde de agradável companhia com conversas animadas e tímidas tentativas de toques entre mãos. Inácio imaginava que se ele fosse aos poucos se acostumaria e encontraria prazer em se entregar àquela mulher. E deu certo. Em certo momento, a coragem lhe encheu e veio um beijo receoso e trêmulo, mas para seu espanto, nada ruim. Abraçou-a com alívio e esperança. Mais abraços e mais beijos depois, e seu corpo estava tomado por um desejo animal em lhe arrancar as roupas e possui seu corpo com a boca, língua e pênis. Armado de tesão como há muitos anos não sentia, quis a levar para casa com urgência.
Isaura o avisou de sua pouca experiência, já que apenas tinha transado com apenas um homem. Ela explicou para ele que seu primeiro relacionamento durou 1 ano e três meses. Ao perder sua virgindade com muita dor e incômodo, seu namorado terminou alegando não conseguir suprir as necessidades e superar aquela dificuldade. Desde então, Isaura baniu esse desejo por achar que não valia a pena a dor e sofrimento pela qual ela havia passado.
Inácio a acalmou e se sentiu uma tranqüilidade de encontrar aquela mulher em sua vida. Para ele, era como a vida houvesse os preparado para aquele momento. Ele acabou convencendo-a a subir para sua casa.
Ele abriu a porta da sala. Um vento entrou com raios de sol. Aquele ar de abandono parecia dissolver aos passos de Isaura na madeira que rangia. Eles caminharam abraçados até o quarto, sorrindo e trocando carícias.
Chegando ao quarto, ela pediu para deixar a penumbra por ainda se sentir tímida. Ele obedeceu. Tirou a blusa dela e chupou o seio até o gemido revelar a entrega de seu corpo. Tiraram as roupas e se beijaram longamente. Ele se encaixou entre as pernas dela. Ela sentia o peso do seu corpo gingando sob ela. E, de repente, ela perguntou:
-Você não vai entrar?
-Já estou...
-Não sinto nada.
-Como assim?
Ele levantou, sentou à beira da cama e se deu conta da completa falta de explicação das outras mulheres. Olhou para seu pênis. Ereto, media dois dedos apenas de suas mãos. Colocou as mãos em sua cabeça desesperado pensando que nunca seria homem algum para qualquer mulher. Debulhou em lágrimas, soluçando e bradando sua dor da castração.
Isaura o abraçou e o desejou como a nenhum outro homem ela havia desejado ou jamais desejaria daí pra frente. E eles se olharam e ela disse:
-Agora você foi feito pra mim! Agora eu sei que você é meu  e de mais ninguém.
ades vizinhas e havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.  Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais, políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se rendiam a seu talento.

Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro, cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.

- Vire de costas, minha Princesa...

Princesa

Princesa
Era uma vez uma princesa. Só que ela não era princesa, mas ela não sabia disso. Ela achava que em algum momento na vida, alguém iria descobrir o tanto que ela era especial de alguma forma.
Ela era filha do meio de sete irmãos. A mais velha, Diana, era a mais trabalhadeira, depois vinha Eliana, uma morena maravilhosa de olhos verdes e corpo escultural, na sequência Carlos, estudante de medicina exemplar. Com um ano a menos que ela, tinha Valquíria, que enchia a casa de amigos, sempre em festas e badalo. Lírio desafiava todos os limites esportivos e sempre saía campeão, e finalmente Cora com habilidades diversas do bordado, cozinha, escrita, atuação entre outros.
Ela amava toda aquela bagunça. Os irmãos sempre com novidades e grandes planos não deixavam quieta a casa de seus pais orgulhosos. Ela se esforçava na escola, entre seus colegas, em todas as atividades que a cercavam. Ela sempre saía junto com a maioria, no meio do miolo. Chegava em casa um tanto desanimada e decepcionada e não contava nada a ninguém. Continuava a ouvir os êxitos de seus irmãos com sincera admiração. Nesses momentos, sentia falta de o pai a sentar no colo para um consolo. Ele sempre se esquivava com qualquer motivo inexplicável.
Um dia, ela acordou cedo, desceu para sala e percebeu que sua mãe conversava com uma vizinha amiga:
- ...pois é, Iara, todos meus filhos, como você bem disse, são um sucesso em tudo que fazem, menos ela – falando baixinho como se para não espalhar- não sei o que deu errado ali. Demos a mesma educação, mesmo carinho... tudo igual, e ela parece não saber o que fazer da própria vida. Parece preguiçosa ou sei lá.... É tão diferente dos outros...
A sensação de desapontamento que ela sentia que causara na mãe a transtornou de tal forma que ela correu para cama aos prantos em total desespero. Passou o dia na cama, sem coragem de olhar na cara de quem quer que seja. Ficou lá sem comer, sem beber água... e ninguém foi chamá-la. Acabou por dormir de cansaço do choro.
No outro dia, ao sair para a escola, decidiu que algo iria mudar. Já com 14 anos, poderia transformar aquela realidade. E ela mudaria sem importar o que fosse necessário. Qualquer coisa que a fizesse sair daquele ostracismo valeria a pena. Não era mais aceitável que ela fosse tão decepcionante para os pais e para si mesmo.
Naquele dia, ela não acertou nenhuma das perguntas que os professores fizeram na sala, ninguém achou graça de nenhuma das piadas ou dos comentários inteligentes que ela fazia, ela não foi chamada para participar de nenhum esporte, nada. Completamente desanimada, ela foi para o final da quadra e sentou pensando o que poderia fazer.
De longe, ela viu Ramon vindo em direção a ela. O que ele queria, ela não poderia saber. Ele nunca havia sequer olhado para ela. Não que ele tivesse qualquer coisa de especial, era só mais um garoto da escola, sem a menor importância. Ele sentou do lado dela. E eles começaram uma conversa trivial, coisas da escola sem qualquer importância. Ele perguntava, ela respondia até que em certo momento o cabelo dela  caiu sobre os olhos e ele tirou passando a mão por sua testa. Ela sentiu um tremor por dentro.  Eles se beijaram longamente, ele tirou a blusa dela, a acariciou carinhosamente. Enquanto ele beijava seu pescoço, ela pediu:
- Me chame de princesa!
E ele atendeu sussurrando em seu ouvido:
- Minha princesa!
Naquele momento, ela se sentiu a mais especial de todas as mulheres. A sensação era tão lisonjeira que ela não sentia dor, somente o fervor lhe cobria do meio das coxas até seu rosto.  Então com muito cuidado ele lhe tirou a virgindade. 
Eles se levantaram, colocaram as roupas e foram para casa.
Ela chegou em casa ainda zonza e mole de prazer. Sorrindo, respondeu à mãe a pergunta corriqueira “como foi seu dia?”:
- Tudo bem.
Subiu para seu quarto e desfrutou daquela sensação por toda noite. No outro dia, não podia esperar a voltar para escola. Chegando lá, encontrou Ramon. Eles conversaram um pouco, mas ela nada sentiu por ele. Percebeu que o que aconteceu não fazia conexão com nenhum sentimento mais profundo.
Uma aula antes do intervalo, ela se pegou olhando entre as pernas de alguns garotos e se masturbando. Wander, um garoto com quem ela fazia muitos trabalhos de escola, percebeu seus olhares. Olhou para ela, sorriu sorrateiramente, ela devolveu o sorriso e os dois fugiram para o banheiro.
Wander era mais velho. Tinha entrado na turma dela por ter sido reprovado dois anos seguidos. E ela percebeu que com ele, ela podia aprender tudo sobre o assunto. A partir daí, eles passaram a se encontrar escondidos antes e depois da aula e nos intervalos. Wander  indicava didaticamente todos os caminhos para o orgasmo. Ele ensinava a usar a boca, o dedo, os grandes lábios, até mesmo os gemidos e frases provocativas. A exploração sexual de seu corpo gerava êxtase e satisfação plena. Quanto mais ela explorava, mais se satisfazia, e mais queria explorar. Esse ciclo vicioso e viciante os colocaram em perigo por sempre estarem em local público. Todos os locais da escola eram possíveis. Por várias vezes, quase foram pegos. Mas sempre dava um jeito de se safarem.
Até que um dia, ao fechar da escola, dentro da secretaria, embaixo do balcão de atendimento, a faxineira os achou. Imediatamente, o diretor foi chamado e consequentemente os pais de ambos.
Ninguém acreditava que ela fazia parte daquilo. Nunca aparentou ser uma menina fora do eixo. Bem comportada, dentro das médias, quieta e quase imperceptível entre os outros alunos, ela nunca havia participado de nenhuma atividade ilegal ou proibida. Mas isto era inconcebível. Foi expulsa.
Ao chegar em casa, os irmãos calados rejeitaram com asco aquela invasora familiar. A mãe foi para o quarto a chorar se culpando sem saber onde estava a culpa. O pai a chamou para a cozinha e disse:
- Não posso te aceitar nessa família. Não após tamanha vergonha, esta casa não pode mais te abrigar. Você não é mais minha filha. Vai, pega suas coisas e some da minha frente.
Calmamente, ela pegou suas roupas, um dinheiro guardado no porta-jóias e saiu sem despedir de ninguém.  Em frente a escola, havia uma senhora mal falada alugando um quarto. E lá ela foi. Dona Jurema era uma senhora gorda que vivia de uma pensão de seu marido morto de causas enigmáticas. Ela explicou a dona Jurema todo o acontecido e disse que não sabia fazer mais nada além de sexo. E era a única coisa em que ela era realmente boa. Dona Jurema admirada com sua honestidade permitiu o trabalho com trinta por cento para a casa. Soltaram o boato, já que não podia levantar uma placa.
No final da semana, a fama chegava a cidades vizinhas e havia filas de espera e agendamento de até uma semana de antecedência. O trabalho tinha de ser feito e ela fazia bem.  Fazendeiros, comerciantes, professores, homens, mulheres, policiais, políticos da região, o diretor que havia a expulsado da escola, enfim todos se rendiam a seu talento.
Em uma quarta-feira, dia de pouco movimento, um homem magro, cabisbaixo, angustiado entra na casa. Ela imediatamente reconhece o homem que a expulsou de casa.
- Podemos ir para o seu quarto?
-Sim – disse ela.
Entrando para o quarto, ele começou a tirar a roupa.
-Mas... eu sou...
-Eu não te conheço. Vim aqui para um serviço.
-Com uma condição. Que você me chame de Princesa.

- Vire de costas, minha Princesa...

Escolha de destino

Escolha de destino

A vida de Nara era muito simples, ordinária mesmo.  Ela cresceu em uma família de classe média com os pais, dois irmãos e uma irmã. A segunda da casa se casou assim que terminou o normal e começou a ter os filhos cedo.  Com cinco anos de casada, já estava com os três filhos. Dois meninos e uma menina.
Osvaldo, seu marido, era funcionário público e vivia uma rotina quase sacerdotal. Saía às sete e meia, voltava às sete de segunda a quinta. Na quinta, chegava ás dez com a devida permissão da esposa para espairecer com os amigos, já que ele também era filho de Deus.  E vez ou outra, ia aos sábados á tarde ver jogos de futebol com os amigos. Tudo com a devida permissão de sua esposa. Como é de se esperar de um bom esposo, nunca faltava nada dentro de casa, e em alguns casos raros, ele trazia para ela um  chamego, uma lembrança como um conjunto de roupas de cama, uma toalha de mesa rendada e até mesmo um conjunto de panelas novas. Ela se sentia envaidecida pelo carinho daquele homem que era, em geral, tão seco.
Ela se sentia protegida e até feliz naquele cenário. Não que ela havia planejado nada daquilo, mas as coisas transcorriam como natural: nascer, crescer, casar, procriar. Terminou o ensino médio namorando o amigo de seu irmão mais velho, quem convivia em sua casa desde sempre. Osvaldo a conhecia de criança, e assim que chegou no último ano da faculdade de direito, ele decidiu que ao final se casaria com Nara. Eles não viam qualquer motivo para um namoro mais longo, já que se conheciam há tantos anos, então noivaram na mesma semana. Foi apenas o tempo para fazer-lhe o enxoval mínimo e casar.
Ao longo do casamento, Osvaldo provinha todas as demandas que ela esperava de um marido, ou que lhe ensinaram a esperar. Estabilidade financeira, assistência familiar, dignidade social, enfim, o pacote. Às vezes, Nara se pegava pensando nos casos apaixonados que sua irmã e primas a contavam secretamente, mas reprimia rapidamente considerando tudo que ela tinha. Qual era a vantagem de ter um homem que lhe beijaria na boca, se ele não teria a firmeza de um pai com os filhos para pô-los para estudar com disciplina e rigidez? Para que ter um marido que a tocasse com paixão se não tivesse tudo do bom e do melhor à sua disposição?
Então ela se resignava com o que a vida lhe deu.  João, estudante de engenharia, com casamento marcado para o ano seguinte era o mais velho. Pedro, calouro na faculdade de medicina, sério e dedicado aos estudos, era o segundo. E Janaína era caçula, que estudava para Farmácia. Três pérolas que ela agradecia eternamente a Osvaldo.
Mais uma sexta-feira, mais uma lavagem de roupas. Nara saía recolhendo todas as roupas remotamente sujas. Muitas vezes, vasculhava em pilhas de roupas largadas dentro dos armários.  Começou pelo próprio quarto, mas não viu as roupas que Osvaldo usou na noite anterior. Como era um homem muito organizado, ela esperava achá-las no cesto na área de serviço. Às vezes, Osvaldo se atrasava um pouco, então se preparava para dormir do lado de fora do quarto para não a aborrecê-la. Normalmente no quarto de João. Ela fingia que nada via para não criar caso. Não valia a pena. Ainda recordou ouvir vozes de discussão e preferiu ignorar. João andava nervoso com a faculdade e o casamento por vir. Foi para o quarto dele pensando em todos os conselhos que o pai sempre o dava sobre profissão, casamento, e mais uma vez, se sentiu grata por ter Osvaldo como marido. O filho não havia herdado a personalidade ordeira e sistemática do pai. Era roupa para todos os lados; uma calça social sobre uma camiseta do futebol, com meias enroladas em um casaco e shorts em cima das roupas de Osvaldo. O que essas roupas faziam ali? Eram as roupas que ele usou na noite anterior, a mesma calça de linho e a camisa branca. Ao esticar as roupas, ela pôde ver as marcas vermelhas de batom, que ele nunca permitiu que ela usasse. Ela rezou ardentemente que fosse catchup ou mesmo sangue. Mas não podia negar para si mesma, era batom por várias partes daquela camisa que ela havia lavado e passado há dois atrás.
Ela não acreditava naquilo. Nem queria acreditar ou ver. Sentindo o chão esvair sob seus pés acabou por sentar no canto entre a porta e o armário. A luz da manhã caiu quase imediatamente no pôr-do-sol. Em choque, acabou percebendo que anoitecia e ela precisava se levantar dali e decidir o que iria fazer. Seguiu com o dia sem que ninguém percebesse nada. Ao dormir, Osvaldo avisou a esposa que iria encontrar com os amigos no dia seguinte.
Ela precisava segui-lo para confirmar o encontro com os amigos. Então assim que ele saiu, logo depois do almoço, ela foi atrás. Pegou um táxi, e viu quando, há dois bairros depois, uma mulher nova e voluptuosa abriu a porta de uma casa de dois andares e o beijou na boca longamente, o envolvendo nos braços e uma das pernas em sua cintura. Ela saiu do táxi. Ficou do outro lado da rua escondida por uma árvore, rezando para que ele saísse o mais rápido e tudo aquilo fosse um terrível pesadelo.
Duas horas depois, resignada, ela foi para casa. Entrou e foi direto para a cozinha, guardar a comida do almoço e lavar as vasilhas. O passar o tempo se tornou uma tortura. Por mais que ela procurava as coisas de casa para fazer, o que ela fazia normalmente, nada saía direito. Maria percebeu o copo quebrado, a mão queimada do ferro e o banheiro sendo esquecido de lavar. Nara disfarçou e nada disse.
Quando ele chegou, ela percebeu um riso que havia sido ignorado em outros momentos. Contentamento da rotina tinha sido a desculpa que ela havia dado àquele sorriso, que agora se tornava o escárnio de sua possível infelicidade.
Passado o domingo, Nara decidiu que tinha que fazer alguma coisa. Ela podia não ter a vida dos sonhos, mas a vida era dela e de mais ninguém. Então após todos saírem para trabalho e escolas, ela trocou de roupa e saiu para a loja mais requintada da cidade. Após uma olhada rápida, comprou o vestido mais bonito, vermelho de seda, que ela podia achar na cidade. Pediu para que a vendedora fizesse o embrulho especial para presente. Pegou o táxi e foi para a casa de dois andares. A morena voluptuosa abriu a porta, e Nara viu como ela é bonita. A moça perguntou:
- Posso te ajudar?
-Você não me conhece pessoalmente. Meu nome é Nara. É o meu marido quem você tem tomado conta. Vim lhe agradecer, mas não precisa mais. Eu cuido dele de agora pra frente.
Deu-lhe o presente e saiu.

Foi pra casa, se aprontou como nunca antes havia se arrumado. Banhou, maquiou, perfumou.  Fez de sua figura uma linda mulher, assumindo seus desejos e condição.  Quando ele chegou, ela o esperava na cama. Estranhando, ele se deitou para nunca mais procurar outra cama. 

Apresentação

Por aqui, você pode ver um pouquinho o que eu penso, sinto, sou.